A Trajetória do Editor e Publisher: Do Direito ao Coração dos Livros
A Jornada de Hugo Maciel de Carvalho e a Materialização de Ideias
Hugo Maciel de Carvalho, um nome reconhecido como editor autônomo e publisher, personifica a transição de carreira guiada pela paixão. Embora sua formação inicial tenha sido em Direito, chegando a atuar em escritórios de advocacia, Hugo reorientou seu percurso profissional, mergulhando de cabeça no universo literário. Para ele, a maior recompensa reside na satisfação de ver seu nome associado a obras de grande impacto, reconhecendo sua contribuição para a criação de leituras que podem, eventualmente, transformar vidas. O editor ressalta que o verdadeiro valor de seu trabalho está em dar forma a pensamentos e narrativas que ecoam, são debatidas e continuam a gerar significado no mundo.
Entre as inúmeras publicações em que atuou, um título ocupa um lugar especial em seu coração: “A Terra Árida”, de T.S. Eliot, na tradução de Gilmar Leal Santos. Esta obra, um de seus poemas favoritos, marcou a estreia de seu próprio selo editorial como publisher, consolidando sua visão e paixão. Hugo demonstra particular apreço por projetos que provocam a reflexão sobre o futuro. Nesse contexto, ele recorda seu trabalho como preparador de texto em dois livros essenciais para compreender as complexas dinâmicas sociopolíticas contemporâneas. “Autonorama”, de Peter Norton, e “Estrada para Lugar Nenhum”, de Paris Marx, são vistos por ele como complementares, oferecendo um diagnóstico profundo sobre as escolhas políticas que moldaram a infraestrutura social e os mecanismos de concentração de poder e controle que se desenham no presente.
Ele também destaca uma obra ainda inédita em que trabalhou, “A Escada de Jacó”, da renomada escritora russa Liudmila Ulítskaia. Este romance monumental, construído a partir de cartas, diários e documentos, acompanha diversas gerações de uma família russa ao longo do século XX, atravessando períodos de revolução, guerra, stalinismo, exílio e o fim da União Soviética. Hugo Maciel de Carvalho descreve o projeto como um dos mais exigentes e intelectualmente estimulantes de sua carreira, dada a densidade rara com que cada página cruza literatura, linguística, filosofia, música, ciência e história na ficção contemporânea.
O Legado Familiar e a Profundidade da Criação Literária
A ligação de Hugo com os livros transcende a esfera profissional, enraizando-se em uma tradição familiar que ele faz questão de perpetuar. A leitura é um ritual diário em sua casa, onde ele e sua esposa dedicam tempo a ler para o filho, mesmo após ele ter aprendido a ler sozinho. Essa prática fortalece a memória afetiva e projeta um futuro promissor para a família como leitores. A própria jornada de Hugo no mundo editorial teve um início profundamente pessoal e inspirador, aos 12 anos de idade, quando seu avô lhe confiou um manuscrito secreto para análise. Essa experiência inaugural se transformou em uma colaboração duradoura e íntima, resultando na publicação de quatro obras conjuntas. O editor nutre o desejo de um dia publicar as “Obras Completas” de seu avô, honrando assim um legado literário e afetivo.
O ritmo de trabalho de um editor, conforme Hugo descreve, é intenso e exige um foco inabalável, com a revisão de centenas de páginas diariamente. Longe da ideia de uma leitura casual, o processo editorial envolve múltiplas releituras, confrontação de ideias, discussões com autores e editores, e longas horas de dedicação, frequentemente durante a madrugada, aproveitando o silêncio. Apesar do amor pelo ofício, Hugo não hesita em expor as dificuldades financeiras da profissão, especialmente para revisores de texto. Ele humoristicamente observa que, apesar de ser um trabalho que exige alta qualificação e dedicação, a remuneração é frequentemente subestimada, o que pode levar os profissionais a buscar soluções criativas para se manterem ativos no mercado.
Diversidade e Dedicação: A Visão da Editora Independente e a Arte da Tradução
Florencia Ferrari e a Ética na Publicação Independente
No vibrante cenário das editoras independentes, Florencia Ferrari, sócia da Ubu, compartilha uma motivação comum: o desejo de publicar obras que verdadeiramente admira. Para Florencia, a Ubu não é apenas uma editora, mas uma plataforma de projetos que fomenta a criação e o aprendizado contínuo, envolvendo uma rede colaborativa de designers, artistas e autores. O significado de seu trabalho transcende a mera geração de receita, configurando-se como um espaço de realização pessoal e uma forma autêntica de estar no mundo. Ela enfatiza a importância de cultivar relações de trabalho saudáveis, contrastando-as com ambientes tóxicos e competitivos vivenciados no passado. A Ubu, em sua visão, se destaca por promover um ambiente de troca, colaboração, apoio e liderança fundamentada no conhecimento de cada membro da equipe.
Além de um ambiente de trabalho construtivo e da disseminação de conhecimento e ideias, Florencia sublinha que o posicionamento ético e político é intrínseco à atuação da editora. Para ela, essa é uma característica marcante de muitas editoras independentes, que se veem como espaços de reflexão crítica e engajamento político. Este posicionamento não se traduz em ativismo direto, mas em uma ética política que permeia a seleção de obras e a maneira como a editora interage com o mundo, contribuindo para o debate e a formação de pensamento crítico.
Adail Sobral: Mais de Meio Milhar de Livros Traduzidos e um Legado Erudito
Adail Sobral, professor universitário e renomado tradutor, acumula em seu currículo a impressionante marca de mais de 500 livros traduzidos, além de ter sido membro do corpo de jurados do prestigioso Prêmio Jabuti em diversas edições. Sua entrada no mundo da tradução, embora inicialmente por acaso, rapidamente se transformou em uma paixão duradoura. Sua primeira experiência profissional ocorreu em 1981, durante a pós-graduação, quando a tradução ainda era vista como uma atividade acadêmica sem remuneração profissional. Foi a partir de 1985 que Adail dedicou-se integralmente à profissão, muitas vezes em parceria com sua então esposa, Maria Stela Gonçalves.
A versatilidade de Adail o levou a transitar por diversas áreas, desde a informática, que lhe garantia sustento, até as ciências humanas, com a tradução de autores como Jean Baudrillard, Jonathan Barnes, David Harvey e Félix Guattari. Posteriormente, ele se especializou na área médica, buscando projetos que oferecessem maior retorno financeiro. Entre as obras que mais lhe trouxeram satisfação, destaca-se “Herói de Mil Faces”, de Joseph Campbell, pela sua fusão de mitologia e literatura. O desafio e a autonomia na revisão dessa obra em particular foram aspectos valorizados. Outra experiência marcante foi a tradução conjunta com Maria Stela de “A troca simbólica e a morte”, de Jean Baudrillard, e, em um projeto de intensa dedicação, as obras completas de Santa Teresa de Jesus, um trabalho que exigiu a adaptação de um original do século XVI para a linguagem moderna, com mais de 2 mil páginas traduzidas em um ano.
O Futuro do Mercado Editorial: Paixão, Desafios e a Necessária Valorização Profissional
As narrativas de Hugo Maciel de Carvalho, Florencia Ferrari e Adail Sobral convergem em um ponto fundamental: a profunda paixão pelo livro e pelo processo de transformar ideias em obras publicadas. No entanto, suas experiências também iluminam os desafios inerentes ao setor editorial, especialmente no que tange à valorização profissional e à remuneração. Adail Sobral, por exemplo, recorda longas jornadas de trabalho, chegando a 14 horas diárias, e um período em que a profissão de tradutor não era plenamente reconhecida, operando sob um modelo quase paternalista, onde a remuneração era modesta e a subsistência exigia um volume massivo de trabalho. Ele nota uma leve melhoria no cenário atual, mas ressalta que a desvalorização ainda persiste, com as grandes editoras ditando os preços de tradução, enquanto as menores, com menor poder de negociação, oferecem condições limitadas.
A questão da remuneração é um ponto crítico para muitos profissionais. Hugo Maciel de Carvalho, com seu humor característico, descreve a realidade dos revisores de texto, um trabalho que demanda expertise e dedicação intensa, mas que é frequentemente subestimado em termos financeiros. A prestação de serviços como pessoa jurídica, embora seja uma evolução, não elimina as pressões por salários mais justos. A melhor remuneração, segundo Adail, é geralmente encontrada em traduções de áreas técnicas, que exigem precisão terminológica elevada, e em serviços prestados a clientes estrangeiros, indicando uma disparidade entre o mercado nacional e internacional.
Apesar desses obstáculos, o elo comum entre esses profissionais é o compromisso inabalável com a cultura, o conhecimento e a literatura. Florencia Ferrari exemplifica como as editoras independentes podem ser faróis de inovação e ética, criando ambientes de trabalho colaborativos e promovendo um posicionamento crítico e político. Hugo Maciel de Carvalho, por sua vez, reitera a alegria de contribuir para a disseminação de narrativas que ressoam e inspiram. Adail Sobral, mesmo após décadas de trabalho intenso, mantém o entusiasmo por obras que o desafiam intelectualmente. O crescimento do setor editorial e livreiro no Brasil oferece uma oportunidade única para que essas vozes sejam mais valorizadas, garantindo que a paixão intrínseca que move esses profissionais seja acompanhada por condições de trabalho dignas e um reconhecimento justo de sua essencial contribuição para a sociedade.






