O cenário geopolítico global atual é marcado por uma complexa rede de incertezas e redefinições de poder, onde a postura de grandes potências, como os Estados Unidos, desempenha um papel crucial. Em meio a essa dinâmica, análises recentes de especialistas em relações internacionais lançam luz sobre aspectos pouco convencionais da política externa americana, especialmente no que tange à América Latina e às prioridades estratégicas globais. Observa-se uma suposta indiferença da administração Trump em relação à efetivação de uma mudança de regime ou à realização de eleições democráticas na Venezuela, contrastando com o discurso público tradicional. Paralelamente, questões estratégicas mais amplas, como a transição energética e a percepção de aliados como o Brasil, emergem como pontos de debate sobre a eficácia e a coerência da diplomacia norte-americana, culminando na percepção de um perigoso vácuo de liderança no panorama mundial.
A Postura Americana Frente à Venezuela e a América Latina
Indiferença à Mudança de Regime e Eleições Democráticas
A crise venezuelana tem sido um dos temas mais persistentes e desafiadores na agenda internacional, com inúmeras potências clamando por uma solução democrática e a restauração das liberdades civis. Contudo, análises aprofundadas sobre a política externa da administração Trump sugerem que, por trás da retórica pública de apoio à oposição e condenação ao regime de Nicolás Maduro, há uma surpreendente indiferença quanto à efetivação de uma mudança de regime por meios democráticos ou à realização de eleições livres. Observadores geopolíticos apontam que o foco principal de Washington parece residir em objetivos mais transacionais ou simbólicos, como a imposição de sanções e a manutenção de uma pressão retórica, que nem sempre se traduzem em um empenho irrestrito para derrubar o regime e instalar uma nova ordem democrática através de um processo eleitoral. Essa perspectiva sugere que a prioridade pode estar mais ligada a outros interesses estratégicos ou políticos domésticos do que a um compromisso inabalável com a democracia venezuelana, gerando frustração e incerteza entre os atores regionais e a própria oposição no país sul-americano. A complexidade dessa abordagem levanta questões sobre o verdadeiro impacto das políticas implementadas e a viabilidade de uma resolução pacífica e democrática para a prolongada crise humanitária e política na Venezuela.
A Percepção do Brasil e os Equívocos Estratégicos dos EUA
O Brasil Fora do Radar de Segurança Nacional Direta
No contexto das relações hemisféricas, a percepção de Washington sobre o Brasil também revela facetas interessantes da política externa norte-americana. Apesar de ser a maior economia e população da América Latina, e um ator regional com influência crescente, o Brasil não é percebido, por analistas, como uma preocupação direta de segurança nacional para os Estados Unidos. Essa avaliação sugere que a relação bilateral, embora importante, se mantém distante daquelas com países que representam riscos diretos de segurança, como nações com potencial nuclear, atores estatais adversários ou regiões de conflito armado intenso. A ausência do Brasil nessa lista de preocupações diretas implica que a diplomacia americana com o gigante sul-americano tende a focar em áreas como comércio, investimentos, cooperação ambiental ou questões de combate ao crime transnacional, em vez de envolver-se em dilemas de segurança militar ou estratégica profunda. Talvez, essa distância se deva à longa história de estabilidade democrática relativa e à ausência de ameaças diretas à segurança regional que pudessem emanar do território brasileiro. Contudo, essa aparente tranquilidade pode também levar a uma subestimação do papel do Brasil em dinâmicas geopolíticas mais amplas, especialmente na América do Sul e no Atlântico Sul, onde a presença e a influência de outros atores globais vêm se intensificando.
O Erro Estratégico na Transição Energética Global
Além das dinâmicas regionais, a análise aponta para um erro estratégico mais abrangente e de profundo impacto global na política externa dos EUA: a preterição da transição energética. Em um momento em que o mundo caminha inexoravelmente para uma economia de baixo carbono e as energias renováveis se consolidam como pilares da segurança energética e do desenvolvimento sustentável, a persistência de uma política americana que minimiza a importância dessa transição é vista como um equívoco com vastas consequências. Ao não abraçar de forma mais robusta e coordenada a mudança para fontes de energia limpa, os Estados Unidos correm o risco de perder sua liderança tecnológica e econômica em um setor vital para o futuro. Mais do que isso, essa postura pode comprometer a credibilidade diplomática do país em fóruns multilaterais sobre clima e meio ambiente, além de deixá-lo vulnerável a futuras crises energéticas e às oscilações dos mercados de combustíveis fósseis. A inação ou a lentidão na transição energética não apenas afeta a segurança climática global, mas também pode erodir a influência geopolítica americana, abrindo espaço para que outras nações assumam a dianteira nesse campo estratégico, reconfigurando alianças e dependências em escala planetária.
O Vácuo Geopolítico e os Riscos Atuais
A combinação da impulsividade na condução da política externa americana, a instabilidade política interna do país e os erros estratégicos, como a preterição da transição energética, têm gerado uma perigosa consequência no cenário global: um vácuo geopolítico. Este vácuo é caracterizado pela ausência de uma liderança previsível e coerente por parte da maior potência mundial, criando um espaço que é rapidamente preenchido por outros atores estatais e não-estatais, muitas vezes com agendas e interesses conflitantes. A imprevisibilidade das decisões de Washington, aliada a uma retração do multilateralismo e a uma tendência ao unilateralismo, mina a confiança dos aliados e encoraja adversários, contribuindo para a fragmentação das relações internacionais. Em um mundo que enfrenta desafios complexos e transnacionais – desde pandemias globais e mudanças climáticas até crises econômicas e proliferação de armas –, a falta de uma coordenação e liderança robustas acarreta riscos iminentes de escalada de conflitos regionais, ineficácia na resposta a ameaças comuns e uma erosão das normas e instituições que, por décadas, sustentaram a ordem internacional. O vácuo geopolítico não apenas desestabiliza a balança de poder, mas também compromete a capacidade da comunidade global de enfrentar coletivamente os desafios do século XXI, apontando para um futuro incerto e potencialmente mais volátil.
Fonte: https://redir.folha.com.br






