A cena política internacional testemunha um ponto de inflexão significativo, onde as dinâmicas tradicionais de poder e influência estão sendo desafiadas e redefinidas. No cerne dessa transformação, a ascensão de líderes da extrema direita, exemplificados por Donald Trump e suas políticas, sinaliza uma guinada audaciosa na abordagem das relações exteriores. As ações direcionadas à Venezuela, em particular, emergem não apenas como um episódio isolado, mas como um paradigma ilustrativo dessa nova era. Argumenta-se que estamos presenciando uma transição fundamental da hipocrisia, que outrora velava os interesses nacionais com um manto de valores universais, para um cinismo descarado, onde a autopromoção e a assertividade unilateral dominam o cenário. Compreender essa mudança exige uma análise aprofundada das forças históricas, das pressões internas e da visão de mundo que impulsionam esses atores a remodelar a ordem global à sua própria imagem, com implicações profundas para a geopolítica futura.
A Transição da Hipocrisia ao Cinismo na Política Global
O Cenário Pré-Existente e a Chegada de uma Nova Abordagem
Por décadas, a diplomacia internacional foi frequentemente caracterizada por uma complexa coreografia de interesses nacionais mascarados por um discurso de multilateralismo, direitos humanos e valores democráticos. A era pós-Guerra Fria, em particular, viu a consolidação de uma ordem liberal global onde intervenções eram justificadas por uma retórica de “responsabilidade de proteger” ou de promoção da democracia, muitas vezes sem abordar de forma transparente os subjacentes cálculos geoestratégicos ou econômicos. Essa “hipocrisia estratégica” permitia que potências ocidentais projetassem seu poder e influência enquanto mantinham uma fachada de legitimidade baseada em normas e instituições globais. O sistema buscava manter uma aparência de consenso e respeito às leis internacionais, mesmo quando suas ações pautavam-se por objetivos unilateralistas.
No entanto, a ascensão de líderes populistas e de extrema direita, notadamente Donald Trump nos Estados Unidos, marcou o fim dessa era de eufemismos. Em vez de disfarçar as intenções por trás de uma linguagem de cooperação ou altruísmo, a nova abordagem é definida por um cinismo aberto e uma assertividade unilateral. A política externa sob essa ótica é vista como uma arena de soma zero, onde o ganho de uma nação necessariamente implica a perda de outra. O interesse nacional, percebido de forma restritiva e muitas vezes protecionista, torna-se a única bússola, dispensando a necessidade de construir amplos consensos ou de aderir rigorosamente a acordos e tratados que não sirvam diretamente a essa agenda. Essa mudança representa não apenas uma alteração tática, mas uma profunda redefinição das bases morais e éticas sobre as quais as relações internacionais eram, pelo menos formalmente, construídas, promovendo uma desconfiança generalizada e a erosão dos laços diplomáticos tradicionais.
As Raízes da Reconfiguração: Tendências Históricas e Demandas Internas
Impulsos Nacionais e a Visão de Mundo da Extrema Direita
A ascensão da extrema direita e sua subsequente reconfiguração da política global não surgiram do vácuo; são o produto de tendências históricas profundas e de demandas internas complexas. No plano histórico, o descontentamento com a globalização e suas consequências econômicas e sociais tem sido um catalisador potente. O sentimento de que as elites globais e as instituições supranacionais usurparam a soberania nacional, aliada à perda de empregos industriais e à estagnação salarial em certas regiões, alimentou um ressentimento generalizado. Somado a isso, as ansiedades culturais em torno da imigração, da erosão de identidades nacionais tradicionais e da percepção de ameaças externas criaram um terreno fértil para narrativas que prometem restaurar a “grandeza” ou a “identidade” de uma nação. Esse clamor por uma volta a valores e estruturas consideradas mais autênticas encontrou eco em diversas sociedades, marcando uma rejeição ao liberalismo cosmopolita e uma valorização do nacionalismo.
Internamente, líderes como Trump respondem a uma base eleitoral que se sente marginalizada pelas políticas convencionais e que anseia por uma liderança forte e decisiva. A retórica anti-establishment, a promessa de “colocar o país em primeiro lugar” (como o “America First” de Trump) e o desprezo por acordos internacionais percebidos como desvantajosos ressoam profundamente junto a esses eleitores. A visão de mundo da extrema direita é frequentemente moldada por uma perspectiva transacional e utilitária das relações internacionais, onde alianças são avaliadas pela sua conveniência e custo-benefício imediato, e não por laços históricos ou valores compartilhados. Há um ceticismo inerente em relação a instituições multilaterais, à cooperação internacional em temas como clima e comércio, e uma preferência pela ação unilateral, quando se julga necessário, para proteger os interesses nacionais sem amarras. Essa mentalidade reforça a ideia de um mundo dividido em esferas de influência e competição direta, em vez de uma comunidade global interconectada e colaborativa, alterando as prioridades da política externa.
Venezuela como Estudo de Caso e o Futuro da Ordem Mundial
As ações em relação à Venezuela servem como um exemplo vívido dessa nova abordagem na política externa. A intensa pressão econômica, as sanções e a retórica agressiva contra o governo venezuelano, sob a administração Trump, não foram exclusivamente motivadas pela preocupação com a democracia ou os direitos humanos, embora esses elementos fossem frequentemente citados para consumo público. Em vez disso, essas medidas refletiram uma estratégia mais ampla de afirmação de poder, de contestação a regimes percebidos como adversários e de redefinição das esferas de influência regionais, tudo isso sem a habitual deferência aos protocolos diplomáticos ou ao consenso regional. A Venezuela tornou-se, assim, um palco onde a lógica do cinismo e do interesse nacional desvelado foi aplicada sem reservas, ignorando as críticas de organismos internacionais e de parte da comunidade global em favor de uma política de pressão máxima.
O impacto dessa reconfiguração é vasto e multifacetado. A ordem mundial, que antes se apoiava em instituições e normas construídas após a Segunda Guerra Mundial, enfrenta agora uma erosão de sua coesão e previsibilidade. A ascensão do unilateralismo e o descrédito de acordos internacionais resultam em um ambiente geopolítico mais volátil, onde a resolução de crises pode se tornar mais complexa e a competição por recursos e influência, mais acirrada. Alianças tradicionais são testadas, e novas coalizões podem surgir com base em interesses momentâneos, em vez de princípios duradouros. A capacidade de governança global para enfrentar desafios transnacionais, como mudanças climáticas e pandemias, é enfraquecida, uma vez que a cooperação se torna menos prioritária. Em última análise, a “nova ordem mundial” que emerge sob a influência da extrema direita é uma ordem menos liberal, mais transacional e potencialmente mais fragmentada, onde a soberania nacional e a busca egoísta por poder se sobrepõem à cooperação e ao entendimento mútuo, alterando fundamentalmente o curso das relações internacionais para as próximas décadas e impulsionando um cenário de maior incerteza.
Fonte: https://redir.folha.com.br






