A Nona Fase e os Desdobramentos Atuais
Alvos, Medidas Judiciais e Acusações
A mais recente etapa da Operação Overclean representa um marco na apuração de crimes contra a administração pública, direcionando o cerco a indivíduos e entidades que compõem uma complexa teia de ilicitudes. As nove ordens judiciais de busca e apreensão, expedidas pelo Supremo Tribunal Federal, foram cumpridas estrategicamente em múltiplos endereços na Bahia e no Distrito Federal. O deputado federal Félix Mendonça Júnior, político de projeção no cenário baiano, foi identificado como o principal alvo desta fase, o que sublinha a magnitude e a relevância da investigação em curso. A ação não se limitou apenas à coleta de evidências físicas; simultaneamente, o STF determinou o bloqueio de R$ 24 milhões em contas bancárias pertencentes a pessoas físicas e jurídicas investigadas. Esta medida cautelar é crucial, pois visa não apenas interromper a movimentação de valores de origem ilícita, mas também assegurar a preservação de ativos que podem ser futuramente utilizados para a reparação dos cofres públicos, um dos pilares da persecução penal nestes casos de desvio.
Os envolvidos nesta vasta rede de corrupção enfrentam uma série de acusações graves, que refletem a complexidade e a abrangência das atividades criminosas investigadas. Entre os crimes imputados estão a organização criminosa, que denota a estrutura e o planejamento do grupo; corrupção ativa e passiva, evidenciando o suborno e a aceitação de propinas; peculato, caracterizado pelo desvio de dinheiro público por parte de servidores; fraude em licitações e contratos administrativos, que mina a concorrência leal e direciona verbas de forma indevida; além da lavagem de dinheiro, o processo pelo qual os recursos ilícitos são reintroduzidos na economia legal. A amplitude das acusações ressalta a natureza multifacetada do esquema, que se estendia desde a origem das verbas públicas até a sua dissipação por meio de mecanismos fraudulentos, com o intuito de enriquecimento ilícito e perpetuação das práticas criminosas.
O Histórico da Operação: Das Primeiras Investigações aos Últimos Avanços
Cronologia e Alcance das Investigações
A Operação Overclean tem um histórico extenso e complexo, com suas raízes na primeira fase deflagrada em 10 de dezembro de 2024. Naquela ocasião, as investigações se concentraram em um esquema intrincado de direcionamento de recursos públicos, provenientes de emendas parlamentares e convênios, para empresas e indivíduos com laços diretos com prefeituras baianas. A profundidade da organização criminosa já se mostrava alarmante, com a revelação de que policiais corruptos auxiliavam o grupo, fornecendo informações sensíveis e sigilosas sobre as diligências federais. A colaboração internacional foi um diferencial desde o início, com a Agência Americana de Investigações de Segurança Interna (Homeland Security Investigations – HSI) prestando suporte vital para desvendar a magnitude do desvio, que movimentou uma cifra impressionante de cerca de R$ 1,4 bilhão. As suspeitas iniciais apontavam para superfaturamento de obras e desvio sistemático de recursos para entidades e pessoas ligadas a administrações municipais, afetando diretamente órgãos federais como o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), particularmente sua Coordenadoria Estadual na Bahia. Como resultado das primeiras apurações, oito servidores públicos foram afastados de suas funções por determinação judicial, demonstrando a gravidade das irregularidades.
As fases subsequentes da Operação Overclean revelaram a capilaridade e a persistência do esquema. Em junho de 2025, durante a quarta fase, a investigação escalou, resultando no afastamento de dois prefeitos da Bahia, Humberto Raimundo Rodrigues de Oliveira, de Ibipitanga, e Alan Machado, de Boquira, ambos suspeitos de envolvimento no desvio de emendas parlamentares. A quinta fase, em julho de 2025, expôs a manipulação de procedimentos licitatórios e o desvio de verbas destinadas ao município de Campo Formoso, na Bahia, além de tentativas de obstrução das investigações. Neste momento, o Supremo Tribunal Federal ordenou o bloqueio de R$ 85,7 milhões em contas de pessoas físicas e jurídicas ligadas ao esquema, evidenciando a escala financeira dos delitos. A sétima fase, deflagrada em 16 de outubro, resultou no afastamento de um agente público sob suspeita de participação no esquema, com mandados de busca e apreensão cumpridos nas cidades baianas de Riacho de Santana e Wenceslau Guimarães, e também em Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro. Finalmente, a oitava fase, no fim de outubro, reforçou a abrangência nacional da operação, com cinco mandados de busca e apreensão executados em Brasília, São Paulo, Palmas e Gurupi, no Tocantins, também sob a égide do STF. Cada etapa desvendou novos tentáculos da organização, confirmando a complexidade e a sofistência da rede criminosa.
O Combate à Corrupção e a Continuidade da Overclean
A Operação Overclean, em sua nona fase, consolida-se como um dos mais abrangentes e persistentes esforços do Estado brasileiro para desmantelar esquemas de corrupção e desvio de verbas públicas. A continuidade das investigações, que se estendem por múltiplos estados e envolvem figuras de diversos escalões políticos e administrativos, reitera o compromisso das instituições de fiscalização e controle em sanear o ambiente público. A colaboração estratégica entre a Polícia Federal, a Controladoria-Geral da União e a Receita Federal, com o respaldo do Supremo Tribunal Federal e, em momentos cruciais, de agências internacionais como a HSI, demonstra a eficácia da ação integrada no enfrentamento de crimes complexos e transfronteiriços. O padrão de atuação da organização criminosa, que se valia de emendas parlamentares, fraudes em licitações e sofisticados mecanismos de lavagem de dinheiro, revela a necessidade de vigilância constante e de aprimoramento dos sistemas de controle.
O impacto de operações como a Overclean transcende a mera prisão de indivíduos e o bloqueio de bens. Ela envia uma mensagem clara à sociedade sobre a intolerância à corrupção e a determinação das autoridades em buscar a responsabilização de todos os envolvidos, independentemente de sua posição. A revelação de que recursos bilionários foram movimentados de forma ilícita, subtraindo verbas essenciais de setores como obras de infraestrutura, saúde e educação, sublinha o custo social do desvio de dinheiro público. A Operação Overclean continua a ser um símbolo da luta incessante contra a impunidade, promovendo a transparência e a integridade na gestão pública. As próximas etapas da investigação prometem trazer ainda mais esclarecimentos e desdobramentos, enquanto o Estado persiste na sua missão de garantir que o dinheiro dos cidadãos seja aplicado com probidade e em benefício da população, reforçando a confiança nas instituições democráticas.
Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br






