A Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) anunciou a abertura de um inquérito administrativo para investigar possíveis infrações à ordem econômica envolvendo a Meta, controladora do WhatsApp. A apuração ocorre em meio ao avanço acelerado da inteligência artificial e ao debate global sobre os limites da atuação de grandes empresas de tecnologia no mercado digital.
O foco da investigação é a integração de ferramentas de inteligência artificial ao WhatsApp e a possibilidade de que essa prática configure “tie-in”, conhecida como venda casada. O Cade irá analisar se a Meta estaria vinculando de forma obrigatória ou restritiva funcionalidades de IA ao aplicativo de mensagens, dificultando a atuação de concorrentes e limitando as opções disponíveis aos usuários.
Com mais de dois bilhões de usuários em todo o mundo, o WhatsApp ocupa posição dominante no setor de comunicação digital, especialmente no Brasil. A incorporação de soluções próprias de IA diretamente na plataforma levanta preocupações sobre o uso dessa base massiva de usuários e dados para obtenção de vantagens competitivas consideradas indevidas. O receio é que a Meta utilize seu alcance para consolidar também sua presença no mercado de serviços baseados em inteligência artificial, criando barreiras à entrada de novos competidores.
Segundo especialistas, a integração vertical entre uma plataforma dominante e serviços emergentes, como a IA, pode impactar negativamente a concorrência. Startups e desenvolvedores independentes podem encontrar dificuldades para competir em um ambiente controlado por uma única empresa, o que pode reduzir a diversidade de soluções disponíveis e frear a inovação no setor.
A investigação do Cade se insere em um contexto internacional de crescente fiscalização sobre grandes empresas de tecnologia. Gigantes como Google, Apple e a própria Meta já enfrentaram processos semelhantes em outros países, o que evidencia os desafios regulatórios impostos por mercados digitais em rápida transformação. No caso brasileiro, o órgão antitruste terá a tarefa de aplicar a legislação concorrencial a um campo ainda em consolidação, no qual faltam precedentes claros.
O desfecho do inquérito poderá estabelecer parâmetros relevantes para o uso e a regulamentação da inteligência artificial em plataformas digitais no país. A decisão do Cade deverá equilibrar o estímulo à inovação tecnológica com a necessidade de preservar um ambiente de concorrência saudável, garantindo liberdade de escolha aos consumidores e evitando a concentração excessiva de poder econômico.
O caso é acompanhado de perto por agentes do mercado e especialistas em regulação, já que pode influenciar não apenas a atuação da Meta no Brasil, mas também futuras políticas públicas e decisões regulatórias relacionadas à inteligência artificial e às grandes plataformas digitais.






