A abertura de um inquérito de ofício pelo ministro Alexandre de Moraes trouxe novamente ao centro do debate os limites da atuação do Judiciário na condução de investigações criminais. A medida, determinada sem provocação da Procuradoria-Geral da República ou da Polícia Federal, foi tomada com base no artigo 43 do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, que autoriza a instauração de inquérito quando há indícios de infração penal ocorrida nas dependências da Corte ou envolvendo pessoas sujeitas à sua jurisdição.
No momento da decisão, Moraes exercia a presidência do STF durante o recesso do Judiciário, o que lhe conferia a prerrogativa regimental para a abertura da investigação. Ainda assim, a iniciativa reacendeu discussões entre juristas e membros do Ministério Público sobre o princípio acusatório, que prevê a separação entre as funções de investigar, acusar e julgar. Especialistas apontam que, embora prevista no regimento, a atuação de um magistrado como responsável pela instauração e relatoria de um inquérito pode levantar questionamentos quanto à imparcialidade e à percepção pública de justiça.
O inquérito foi aberto em meio à divulgação de reportagens que revelaram ligações entre familiares de ministros do STF e o Banco Master, instituição envolvida em um escândalo de fraude financeira. As informações levantaram suspeitas sobre possível acesso e vazamento de dados fiscais e financeiros de ministros, possivelmente a partir de órgãos como o Coaf ou a Receita Federal. Moraes manifestou preocupação com a origem dessas informações e determinou a investigação para apurar como dados sensíveis teriam sido obtidos e divulgados.
Entre os casos noticiados, estão transações envolvendo parentes do ministro Dias Toffoli e negócios relacionados a pessoas ligadas ao Banco Master, além da informação de que um escritório de advocacia administrado pela esposa de Alexandre de Moraes teria firmado contrato de alto valor com a instituição antes da eclosão do escândalo. A coincidência dessas revelações reforçou a suspeita de vazamento de informações internas e ampliou a repercussão do caso.
O episódio intensificou o debate sobre transparência, ética e controle institucional no Judiciário. Críticas ao inquérito de ofício voltaram a ganhar força, especialmente quanto à necessidade de preservar a separação das funções processuais e garantir a confiança pública nas decisões da Corte. Nesse contexto, ganha relevância a proposta de criação de um código de conduta específico para ministros de tribunais superiores, defendida anteriormente pelo ministro Edson Fachin, com o objetivo de estabelecer regras mais claras sobre conflitos de interesse, relações profissionais de familiares e o uso de informações sigilosas.
O caso envolvendo o Banco Master e a investigação sobre vazamento de dados expõem desafios estruturais enfrentados pelo Supremo Tribunal Federal na preservação de sua credibilidade. O desfecho das apurações e eventuais mudanças nas normas éticas da Corte devem ter impacto direto na forma como o Judiciário se relaciona com a sociedade e lida com episódios que envolvem seus próprios membros.






