A profunda intersecção entre ética e política emerge como um pilar central no pensamento de figuras monumentais como Hannah Arendt e Simone de Beauvoir. Ambas as filósofas, cada uma a seu modo, desvelaram a intrínseca dimensão política do ato de julgar, um conceito que transcende a mera aplicação de normas morais ou legais para se consolidar como um exercício fundamental da cidadania e da responsabilidade individual. A iminência de celebrar os 80 anos de publicação da obra seminal de Beauvoir, “Por uma Moral da Ambiguidade”, oferece uma oportunidade singular para revisitar e aprofundar a compreensão de como o discernimento crítico, longe de ser um mero processo intelectual subjetivo, configura-se como um ato engajado capaz de moldar o tecido social e político, influenciando diretamente a construção de um mundo mais justo e humano.
A Crítica Arendtiana ao Julgamento Político
O Legado de Eichmann e a Banality do Mal
Hannah Arendt, com sua análise incisiva das experiências totalitárias do século XX, particularmente em “Eichmann em Jerusalém: Um Relato Sobre a Banalidade do Mal”, trouxe à tona a crise do julgamento na esfera política. Para Arendt, a “banalidade do mal” não residia numa maldade intrínseca ou patológica de indivíduos como Adolf Eichmann, mas sim na sua incapacidade ou recusa em pensar e julgar por si mesmos. Eichmann, em sua visão, era um homem comum que simplesmente acatava ordens, um burocrata que abdicava de sua faculdade de discernir o certo do errado, tornando-se uma engrenagem num sistema de aniquilação. Este fenômeno expôs a fragilidade das sociedades quando os cidadãos perdem a capacidade de emitir juízos independentes, delegando essa função à autoridade ou à opinião coletiva.
Arendt argumentava que o julgamento é uma atividade intrinsecamente política, pois exige que o indivíduo saia de sua esfera privada e se coloque no lugar dos outros, considerando diversas perspectivas. Isso não implica relativismo moral, mas uma “mentalidade ampliada” (enlarged mentality), que permite compreender a complexidade das situações e as implicações de suas escolhas. O julgamento, para Arendt, é a capacidade de pensar e agir de forma responsável em um mundo partilhado, um pré-requisito para a existência de uma verdadeira esfera pública e para a resistência contra regimes que suprimem a individualidade e o pensamento crítico. A falha em julgar, portanto, não é apenas uma falha ética individual, mas uma falha política coletiva que abre portas para a tirania e a injustiça.
Simone de Beauvoir e a Moral da Ambiguidade
Liberdade, Responsabilidade e a Ética Existencialista
Simone de Beauvoir, uma das vozes mais proeminentes do existencialismo francês, oferece em “Por uma Moral da Ambiguidade” um tratado filosófico que explora as tensões inerentes à condição humana. Para Beauvoir, o ser humano é, por excelência, um ser ambíguo, situado entre a facticidade de sua existência e a transcendência de sua liberdade. Não nascemos com uma essência predefinida; somos o que fazemos de nós mesmos através de nossas escolhas e projetos. Essa liberdade, contudo, não é um dom leve, mas um fardo pesado, pois com ela vem a responsabilidade total por nossas ações e, fundamentalmente, por sua repercussão no mundo e na liberdade dos outros.
A ética de Beauvoir não busca regras universais rígidas, mas uma moralidade que emerge da ação e do engajamento. Ela argumenta que a autenticidade consiste em assumir nossa liberdade e lutar pela liberdade dos outros. O julgamento, nesse contexto, torna-se um ato ético e político crucial. Ao escolher agir, ao julgar uma situação como injusta ou uma ação como necessária, o indivíduo não apenas define a si mesmo, mas também contribui para moldar o ambiente social e político. A recusa em julgar, a inação ou a submissão cega a preceitos externos, é vista por Beauvoir como uma forma de má-fé, uma renúncia à própria liberdade e, consequentemente, à responsabilidade de construir um mundo onde a liberdade seja possível para todos. A moral da ambiguidade exige que enfrentemos as incertezas e as complexidades, fazendo escolhas que afirmem a liberdade, mesmo diante da falta de garantias absolutas.
A Convergência Filosófica no Exercício do Julgar
Apesar de suas abordagens distintas e focos particulares, Hannah Arendt e Simone de Beauvoir convergem na compreensão de que o julgamento é uma atividade essencialmente política e moral, com implicações profundas para a existência humana e a organização da sociedade. Ambas as pensadoras nos convidam a ir além da mera conformidade com normas estabelecidas, exigindo um engajamento ativo e uma reflexão crítica diante dos desafios do mundo. Para Arendt, o julgamento reside na capacidade de pensar por si mesmo, de considerar múltiplas perspectivas e de assumir a responsabilidade pelas consequências das próprias ações no espaço público. Para Beauvoir, a moralidade surge do reconhecimento da nossa liberdade e da necessidade de projetar essa liberdade para a emancipação dos outros, fazendo com que cada escolha e cada julgamento reverberem na construção de um mundo mais livre e justo.
A relevância de suas filosofias é mais premente do que nunca em um cenário global marcado por polarizações, desinformação e desafios éticos complexos. A capacidade de julgar criticamente, de discernir a verdade da falsidade, de reconhecer a dignidade intrínseca de cada indivíduo e de resistir à opressão, é um baluarte contra a tirania e a indiferença. Tanto Arendt quanto Beauvoir, por meio de suas obras, instam-nos a assumir a pesada, mas libertadora, tarefa de julgar, transformando esse ato em uma ferramenta poderosa para a defesa da liberdade, da justiça e da humanidade, consolidando o julgamento como um ato de permanente engajamento cívico e de resistência ética.
Fonte: https://redir.folha.com.br






