A intrincada obra “Galáxias”, do renomado poeta brasileiro Haroldo de Campos, alcançou um novo patamar de reconhecimento global com a recente publicação de sua tradução integral para o inglês. Este feito monumental, que vem acompanhado de uma recepção internacional calorosa e de diversos ensaios críticos, não apenas democratiza o acesso a uma das mais complexas e inovadoras expressões da poesia contemporânea, mas também solidifica o legado de Campos no cenário literário mundial. A meticulosa versão, fruto do empenho e talento de Odile Cisneros, é celebrada por sua capacidade de recriar a sonoridade, o ritmo e os jogos verbais que caracterizam o original, provando ser mais do que uma mera transposição linguística: uma verdadeira transcriação. Essa iniciativa posiciona “Galáxias” firmemente como um marco incontestável da literatura de vanguarda e amplia o diálogo sobre as possibilidades da linguagem poética em diferentes culturas.
Haroldo de Campos e a Arquitetura Lírica de “Galáxias”
O Legado da Poesia Concreta e a Revolução da Forma
Haroldo de Campos (1929-2003) é uma figura central na história da literatura brasileira e um dos pilares do movimento da Poesia Concreta, surgido no Brasil na década de 1950. Ao lado de seu irmão Augusto de Campos e de Décio Pignatari, ele propôs uma ruptura radical com as formas poéticas tradicionais, buscando uma poesia que fosse visual, sonora e espacial. “Galáxias”, obra-prima de Campos escrita entre 1964 e 1976, é a cristalização máxima desses princípios. O livro é uma vasta teia de fragmentos narrativos e líricos, destituídos de pontuação, que se desdobram em uma linguagem torrencial e contínua. Cada “galáxia” é uma unidade autônoma e interconectada, onde a palavra é explorada em suas múltiplas dimensões: semântica, fonética e gráfica. A leitura de “Galáxias” não é linear; é uma imersão em um universo de invenção verbal, neologismos, aliterações e ritmos sincopados que desafiam as convenções literárias e expandem os limites da própria linguagem. A natureza experimental da obra, que flutua entre a prosa poética e o poema em prosa, representa um desafio hercúleo para qualquer tradutor, exigindo não só proficiência linguística, mas uma profunda compreensão da inventividade e da filosofia por trás de sua criação, elementos cruciais para sua apreciação global.
A Transcriação Primorosa de Odile Cisneros
A Recriação de Som, Ritmo e Jogo Verbal para o Público Anglófono
A tarefa de traduzir “Galáxias” para o inglês não era para qualquer um. Requer uma sensibilidade aguçada e um domínio das sutilezas que vão além do significado literal das palavras. É nesse contexto que o trabalho de Odile Cisneros se destaca de forma notável. Cisneros, reconhecida por sua experiência em literatura latino-americana e sua profunda familiaridade com a obra de Haroldo de Campos, empreendeu o desafio de “transcriar” a obra – um conceito defendido pelos poetas concretos, que sugere uma tradução que não apenas reproduz, mas reinventa o original em outra língua, buscando equivalência estética e funcional em vez de mera correspondência semântica. Sua tradução é um testemunho de rara habilidade, pois consegue capturar a essência sonora e rítmica que é tão intrínseca a “Galáxias”. As aliterações, assonâncias e os complexos jogos de palavras que permeiam a obra de Campos foram recriados com engenho, permitindo que leitores anglófonos experimentem a mesma vertigem verbal e a mesma riqueza de texturas linguísticas do original. A escolha cuidadosa de vocabulário e a reconstrução sintática demonstram um profundo respeito pela intenção do autor, ao mesmo tempo em que adaptam a obra para ressoar com uma nova audiência, sem diluir sua força revolucionária ou sua complexidade estilística.
“Galáxias” no Cenário Global: Um Marco da Poesia Contemporânea
A tradução integral de “Galáxias” por Odile Cisneros não é apenas um feito acadêmico ou editorial; é um evento cultural de grande magnitude que reposiciona a obra de Haroldo de Campos e a poesia brasileira de vanguarda no mapa da literatura mundial. A vasta coleção de ensaios críticos que acompanham e celebram essa tradução é uma prova do impacto imediato e profundo que o livro está gerando. Acadêmicos, críticos literários e poetas de língua inglesa agora têm acesso direto a uma obra que desafiou e redefiniu as fronteiras da poesia em seu tempo e que continua a fazê-lo. Este reconhecimento internacional valida a visão de Campos e de seus pares concretistas, sublinhando a universalidade da experimentação estética e a capacidade da poesia de transcender barreiras linguísticas e culturais quando traduzida com a devida arte. “Galáxias”, em sua versão inglesa, não só se consolida como um pilar da poesia contemporânea, mas também serve como um catalisador para um maior interesse na rica e diversificada produção literária brasileira, incentivando novas pesquisas, leituras e diálogos sobre as formas e funções da poesia no século XXI. É um convite à exploração de um universo verbal sem precedentes, acessível agora a uma audiência global, enriquecendo o panorama literário e cultural de forma irrefutável.
Fonte: https://redir.folha.com.br






