Em uma iniciativa que redefine a experiência de visitação em um dos marcos mais icônicos da capital italiana, a cidade de Roma instituiu, a partir desta segunda-feira, 2 de fevereiro, a cobrança de uma taxa de entrada para turistas que desejam se aproximar da majestosa Fontana di Trevi. A medida, que estabelece um custo de dois euros (aproximadamente 12,40 reais), posiciona a obra-prima barroca como o mais recente monumento mundial a adotar estratégias de financiamento e gestão de fluxo de visitantes, visando combater a crescente superlotação. A Fontana, célebre palco de uma das cenas mais emblemáticas do cinema em “La Dolce Vita”, de Federico Fellini, atrai anualmente milhões de admiradores, solidificando seu status como uma parada obrigatória para quem explora a Cidade Eterna.
A Nova Política de Acesso e Seus Detalhes
Implementação da Taxa e Mecanismo de Cobrança
A nova política de acesso à Fontana di Trevi visa equilibrar a preservação do patrimônio histórico com a demanda turística avassaladora. Com a implementação da taxa de dois euros, os visitantes agora têm a opção de adentrar uma área delimitada, estrategicamente posicionada no topo da escadaria que leva à fonte. Esta área oferece uma perspectiva mais íntima e, crucialmente, menos congestionada para apreciar os detalhes intrincados das esculturas de Nicola Salvi e Giuseppe Pannini. A cobrança é gerenciada por uma equipe de aproximadamente 25 atendentes, facilmente identificáveis por seus coletes azuis, que não apenas processam os pagamentos na bilheteria, mas também orientam os turistas pela nova rota de acesso, garantindo uma experiência mais organizada e segura. Esta medida não apenas gera receita, mas também estabelece um controle mais eficaz sobre o número de pessoas simultaneamente presentes nas imediações do monumento.
A iniciativa representa um passo significativo na administração do turismo de massa, transformando a forma como os visitantes interagem com um dos símbolos mais fotografados de Roma. Anteriormente, a praça em torno da Fontana di Trevi era acessível livremente em sua totalidade, resultando em aglomerações constantes que, muitas vezes, prejudicavam a apreciação da obra e a segurança dos transeuntes. Agora, embora grande parte da praça continue aberta ao público sem custo, a área privilegiada de observação, que permite fotos mais claras e uma imersão mais profunda na beleza da fonte, passou a ter um valor agregado. Esta diferenciação no acesso busca otimizar a experiência para aqueles dispostos a investir na qualidade da visitação, ao mesmo tempo em que oferece uma alternativa gratuita para quem prefere uma observação mais distante.
Reações Iniciais e O Impacto na Experiência Turística
O Sentimento dos Visitantes: Entusiasmo e Ceticismo
As primeiras horas após a implementação da taxa revelaram uma mistura de reações entre os turistas. Muitos demonstraram surpresa, mas a maioria pareceu aceitar a nova realidade com um espírito de compreensão e, em alguns casos, entusiasmo. Agata Harezlak, uma turista polonesa de 41 anos, expressou seu encantamento com a medida, afirmando: “Diga-me que não vale dois euros! Vale milhares, senão milhões, é linda!”. Sua fala reflete a percepção de valor que a majestade da Fontana di Trevi impõe, onde o pequeno custo é ofuscado pela grandiosidade da experiência. Para ela, o investimento é justificado pela oportunidade de desfrutar de um dos pontos turísticos mais famosos do mundo.
Essa perspectiva é corroborada por outros visitantes que valorizam a possibilidade de uma experiência menos caótica. Phillip Willis, um turista britânico, comentou sobre sua satisfação em conseguir “uma foto decente mesmo sem ser bombardeado por um monte de gente”, mesmo diante do frio. A capacidade de capturar momentos sem a interrupção de grandes multidões é um atrativo considerável para muitos, que veem na taxa uma garantia de maior tranquilidade e melhor ângulo para suas fotografias. No entanto, é natural que a medida também gere questionamentos sobre a gratuidade do acesso a espaços públicos e o impacto na espontaneidade da visita, elementos intrínsecos à experiência de passear por uma cidade histórica como Roma. A coexistência de visões distintas sobre o valor da taxa reflete a complexidade da gestão de atrações turísticas de renome mundial.
Perspectivas e Alternativas de Visitação
Apesar da implementação da taxa, a prefeitura de Roma manteve uma porção significativa da praça da Fontana di Trevi acessível ao público sem custos. Essa abordagem dupla permite que os turistas escolham a modalidade de visitação que melhor se adequa às suas expectativas e orçamento. Muitos visitantes ainda optam por contemplar a fonte de uma distância maior, tirando fotos da área aberta, onde a perspectiva geral do monumento permanece imponente e acessível. Essa flexibilidade é crucial para evitar que a barreira financeira impeça a apreciação da obra por parte de viajantes com orçamentos mais restritos ou aqueles que simplesmente preferem uma observação mais panorâmica.
A decisão de manter a área externa gratuita também serve para mitigar críticas de que a cidade estaria “privatizando” seus monumentos públicos. Ao oferecer uma alternativa gratuita, Roma busca equilibrar a necessidade de financiamento e gestão de fluxo com o direito de acesso cultural. A experiência de caminhar pela praça, jogar uma moeda na fonte ou simplesmente admirar a arquitetura circundante ainda é possível sem qualquer custo. A taxa se aplica especificamente à entrada na área cercada, que oferece uma vantagem tangível em termos de espaço e proximidade, redefinindo assim o que significa “visitar” a Fontana di Trevi para diferentes públicos e necessidades.
Impacto Financeiro e o Cenário Global do Turismo
A introdução da taxa de acesso à Fontana di Trevi não é apenas uma resposta à superlotação, mas também uma estratégia financeira robusta para a cidade de Roma. As projeções iniciais da prefeitura são ambiciosas, estimando que a nova taxa possa gerar uma receita anual de pelo menos seis milhões de euros. Este montante significativo será fundamental para a manutenção e aprimoramento da infraestrutura turística da capital italiana, bem como para a preservação de seu vasto patrimônio histórico e artístico. Uma parte considerável dessa receita está destinada a cobrir os custos operacionais da própria Fontana di Trevi, incluindo o pagamento dos atendentes contratados para gerenciar o fluxo de visitantes e a manutenção da área. Além disso, os recursos arrecadados permitirão à cidade oferecer entrada gratuita em diversos museus da capital para os moradores de Roma, um benefício direto que reforça o elo entre a comunidade local e seu legado cultural, aliviando o fardo fiscal sobre os contribuintes romanos e promovendo o acesso à cultura.
Esta medida em Roma se insere em um contexto global mais amplo, onde grandes destinos turísticos e monumentos históricos buscam soluções inovadoras para os desafios impostos pelo turismo de massa. Cidades como Veneza, com sua “taxa de acesso” para visitantes diurnos, e Paris, com o Museu do Louvre ajustando seus valores de entrada para não-europeus, demonstram uma tendência crescente. O objetivo comum é a sustentabilidade, tanto ambiental quanto financeira, de locais que enfrentam pressões significativas devido ao aumento exponencial de visitantes. A estratégia romana para a Fontana di Trevi reflete uma consciência crescente de que o acesso irrestrito, embora democrático, pode ser insustentável a longo prazo, levando à degradação dos locais e a uma experiência insatisfatória para todos. Ao gerenciar ativamente o fluxo e gerar receita, Roma não apenas protege um de seus tesouros mais preciosos, mas também investe no futuro de sua oferta cultural, garantindo que as futuras gerações possam continuar a se maravilhar com a beleza e a história da Cidade Eterna.
Fonte: https://g1.globo.com






