As autoridades da pacata cidade de Fujiyoshida, aninhada nas proximidades do icônico Monte Fuji, tomaram uma decisão drástica que repercute em todo o cenário turístico global: o cancelamento do tradicional festival das cerejeiras em flor deste ano. A medida, anunciada após uma década de celebração que visava promover a beleza local, reflete uma crescente insatisfação e profunda preocupação com o comportamento dos visitantes e a sobrecarga imposta à infraestrutura local. O fluxo avassalador de turistas, impulsionado por fatores como a desvalorização do iene e a febre das redes sociais, transformou uma celebração cultural em uma fonte de transtornos para os 44 mil habitantes da cidade, gerando desde lixo excessivo e congestionamentos crônicos até violações alarmantes da privacidade e da dignidade local. A beleza efêmera da sakura, antes um convite à contemplação, tornou-se o epicentro de um dilema urbano.
Crescimento Exponencial e Desafios Urbanos
O parque Arakurayama Sengen, em Fujiyoshida, com seu pagode pitoresco e a deslumbrante vista panorâmica do Monte Fuji emoldurando as cerejeiras em flor, tornou-se rapidamente um ícone turístico global. Em abril de 2016, as autoridades locais inauguraram oficialmente o festival, visando capitalizar essa beleza natural e cultural para impulsionar a economia regional, criando uma “atmosfera dinâmica” e promovendo as atrações únicas da área. Inicialmente, a iniciativa foi um sucesso retumbante, atraindo cada vez mais visitantes em busca da foto perfeita para compartilhar nas redes sociais. A combinação estratégica do iene desvalorizado, tornando o Japão um destino mais acessível para viajantes internacionais, e a viralização de imagens deslumbrantes, alimentada pelas plataformas digitais, catalisou um aumento sem precedentes no número de turistas que convergiam para a pequena cidade a cada primavera.
O Declínio da Hospitalidade: Do Impulso ao Caos
Contudo, o que era para ser um motor de desenvolvimento e celebração cultural transformou-se em um peso insustentável. A prefeitura de Fujiyoshida relata que o volume de visitantes nos últimos anos cresceu exponencialmente, extrapolando em muito a capacidade de acolhimento da cidade. Durante o pico da floração das cerejeiras, estima-se que 10 mil turistas cheguem diariamente a Fujiyoshida, uma localidade cuja população não ultrapassa os 44 mil habitantes. Essa desproporção gerou um fenômeno de “turismo excessivo” ou overtourism, com graves impactos na qualidade de vida dos residentes. Ruas e calçadas ficaram intransitáveis devido ao congestionamento de pedestres e veículos, a infraestrutura de serviços básicos foi severamente sobrecarregada e, o mais preocupante, o acúmulo de lixo tornou-se um problema crônico e visível, desfigurando a paisagem natural e urbana que os visitantes tanto buscavam admirar. A “vida calma dos cidadãos”, como descreveu o prefeito Shigeru Horiuchi, estava sob séria ameaça, exigindo uma intervenção urgente e decisiva.
Comportamento Inadequado e Medidas Drásticas
O aumento exponencial do turismo não trouxe apenas questões de infraestrutura e sobrecarga. Paralelamente, uma onda de comportamentos inadequados por parte de alguns visitantes intensificou o clima de insatisfação local a níveis insustentáveis. Relatos da prefeitura detalham incidentes alarmantes que violaram diretamente a privacidade e o senso de segurança dos moradores. Turistas foram observados abrindo portas de residências particulares sem permissão, na tentativa de usar banheiros privativos, uma clara invasão de propriedade. Além disso, a situação escalou para atos ainda mais chocantes, como a invasão e a sujeira de quintais particulares, culminando até em casos de defecação em propriedades alheias. Quando os moradores tentavam reclamar ou intervir, frequentemente encontravam resistência ou indiferença, gerando alvoroço e um sentimento generalizado de desrespeito. Esses episódios ultrapassaram os limites da paciência e da tolerância, levando as autoridades a uma séria reflexão sobre a sustentabilidade do modelo turístico adotado.
A Preservação da Dignidade Local em Xeque
Diante desse cenário alarmante de desordem e desrespeito à dignidade dos habitantes, o prefeito de Fujiyoshida, Shigeru Horiuchi, declarou um “forte sentimento de crise” ao anunciar a suspensão do festival que por uma década celebrou a primavera japonesa. “Para proteger a dignidade e as condições de moradia dos nossos cidadãos, decidimos suspender o festival”, afirmou Horiuchi em seu comunicado oficial, na terça-feira. A decisão, embora drástica, reflete o esgotamento dos recursos e da paciência da comunidade. Cartazes de advertência, em inglês e japonês, foram espalhados pela cidade, alertando sobre perigos como tirar fotos no meio da rua e a importância de permanecer nas calçadas, evidenciando que as tentativas de educação e controle já vinham sendo implementadas, mas se mostraram insuficientes. Mesmo com o cancelamento do festival, a cidade se prepara para um fluxo contínuo de visitantes em abril e maio, o que indica que a batalha contra o turismo excessivo está longe de terminar, exigindo estratégias mais robustas e de longo prazo para equilibrar o desenvolvimento turístico com o bem-estar dos residentes.
Perspectivas Futuras e o Cenário Global do Overtourism
O caso de Fujiyoshida não é um incidente isolado, mas um sintoma eloquente de um desafio global crescente conhecido como overtourism, ou turismo excessivo. A superpopulação de visitantes em destinos populares tem levado autoridades em diversas partes do mundo a repensar suas políticas e a implementar medidas cada vez mais restritivas para proteger a qualidade de vida local e a integridade de seus patrimônios culturais e naturais. No próprio Japão, a preocupação com o comportamento dos turistas e a gestão dos fluxos não é novidade. A cidade de Fujikawaguchiko, por exemplo, que oferece outra vista icônica do Monte Fuji, já havia erguido uma grande barreira escura em 2024 para bloquear a visão de um ponto famoso – uma loja de conveniência com o vulcão ao fundo – após acusações de lixo, estacionamento ilegal e conduta inadequada de estrangeiros em busca da “foto perfeita”. Essas ações demonstram a urgência em encontrar um equilíbrio sustentável entre a promoção turística e a preservação local.
A tendência de controle do turismo se manifesta em múltiplas formas e em diversos continentes. Na Europa, berço de muitos dos destinos mais procurados, a Itália tem sido particularmente proativa em suas medidas. Em fevereiro deste ano, Roma começou a cobrar uma taxa de acesso de 2 euros para a área de observação da icônica Fontana di Trevi. A medida visa não apenas controlar o grande número de visitantes em pontos nevrálgicos, mas também angariar fundos essenciais para a manutenção do monumento, que antes era de visita gratuita. Mais incisivo ainda é o modelo adotado por Veneza, onde visitantes diários que pretendem explorar a cidade precisam pagar taxas de entrada que variam de 5 a 10 euros, dependendo da antecedência da reserva e do dia da visita, em um esforço contínuo para mitigar os impactos do turismo massivo em sua frágil estrutura urbana e cultural. Essas iniciativas, embora por vezes controversas e recebidas com ressalvas por parte da indústria do turismo, sublinham uma mudança de paradigma: a transição de uma era de incentivo irrestrito ao turismo para uma fase de gestão mais rigorosa e sustentável. O desafio é preservar a atratividade cultural e natural dos destinos sem comprometer a existência e a dignidade de suas comunidades, garantindo que a beleza não seja apenas para ser vista, mas para ser vivida de forma respeitosa e harmoniosa por todos. O cancelamento em Fujiyoshida serve como um lembrete contundente de que a hospitalidade tem limites e que o respeito é uma via de mão dupla essencial para a sobrevivência do turismo a longo prazo.
Fonte: https://g1.globo.com






