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Haddad Critica Apropriação do Estado Pela Classe dominante brasileira

Reportagem da Agência Brasil by Reportagem da Agência Brasil
8 de fevereiro de 2026
in Notícias
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Fernando Haddad, Ministro da Fazenda, gerou repercussão ao tecer críticas contundentes sobre a percepção da classe dominante no Brasil em relação ao Estado. Durante o lançamento de sua obra “Capitalismo Superindustrial”, em um evento realizado na capital paulista, o ministro afirmou categoricamente que a elite brasileira historicamente concebe a estrutura estatal como uma propriedade privada, em vez de um patrimônio coletivo. Essa visão, segundo Haddad, é um fator crucial na persistente fragilidade da democracia no país e na perpetuação de desigualdades sociais e econômicas profundas. A discussão, que ocorreu no Sesc 14 Bis, contou com a participação de Celso Rocha de Barros e a mediação de Lilia Schwarcz, mergulhando em temas que perpassam a formação histórica do Brasil e as dinâmicas do capitalismo global contemporâneo, conforme explorado em seu novo livro.

Apropriação Histórica do Estado Brasileiro e a Fragilidade Democrática

Raízes Históricas da Concepção Patrimonialista do Estado

O ministro Fernando Haddad apresentou uma tese provocativa que busca as raízes da apropriação do Estado pela classe dominante brasileira em eventos históricos cruciais. De acordo com sua análise, a entrega da estrutura estatal a grupos dominantes, especificamente aos fazendeiros, pode ser interpretada como uma forma de indenização velada pela abolição da escravidão. Haddad contextualizou essa ideia lembrando que o movimento republicano no Brasil ganhou força e se organizou imediatamente após a assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888. Apenas um dia depois, em 14 de maio, os republicanos iniciaram sua articulação que culminaria na Proclamação da República, um ano depois. Esse movimento, ao derrubar a classe dirigente imperial, não estabeleceu um governo verdadeiramente representativo do povo, mas sim consolidou o poder da classe dominante, que passou a gerenciar o Estado como uma extensão de seus próprios interesses. “Estamos com esse problema até hoje”, ressaltou o ministro, sublinhando a continuidade histórica dessa dinâmica. A perpetuação dessa mentalidade patrimonialista do Estado é, para Haddad, uma chaga na construção de uma nação mais equitativa e inclusiva, onde as instituições públicas deveriam servir ao bem comum e não a privilégios setoriais, perpetuando um ciclo de dominação e exclusão que compromete o desenvolvimento social e a justiça distributiva no país.

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Implicações para a Democracia e o Risco de Ruptura Institucional

A concepção do Estado como propriedade privada, defendida por uma classe dominante historicamente arraigada, tem profundas implicações para a saúde e a estabilidade da democracia brasileira. Fernando Haddad descreve um “acordão” subjacente, muitas vezes velado, mas com o beneplácito de setores das Forças Armadas, que garante a manutenção desse *status quo*. Quando esse pacto não declarado é posto em xeque ou quando instâncias de poder são questionadas, a reação, segundo o ministro, é imediata e feroz. Há uma resistência intransigente a qualquer tentativa de reformar ou democratizar as estruturas que sustentam esse arranjo, impedindo avanços sociais e políticos essenciais. É justamente essa intocabilidade de certos interesses e estruturas que torna a democracia no Brasil tão problemática e intrinsecamente frágil. A verdadeira essência da democracia reside na capacidade de contestar e transformar o *status quo*, de permitir que vozes dissonantes sejam ouvidas e que as prioridades da sociedade se reconfigurem pacificamente. Contudo, no contexto brasileiro, sempre que a “corda é esticada” e as demandas por maior justiça social e representatividade ameaçam os pilares desse “acordão”, o risco de uma ruptura institucional se torna iminente. Essa fragilidade não é um acidente histórico, mas uma consequência direta da maneira como o poder foi historicamente consolidado e mantido no país, com o Estado sendo visto não como um ente de todos, mas de uma parcela específica e poderosa da sociedade, limitando o pleno exercício da cidadania e a concretização de direitos fundamentais.

O Capitalismo Superindustrial: Desigualdade e Novas Configurações Globais

Análise do Modelo Global e Acumulação de Capital

Em seu recém-lançado livro, “Capitalismo Superindustrial”, Fernando Haddad mergulha na análise dos complexos processos que moldaram o atual modelo econômico global, caracterizado por uma escalada de desigualdade e intensa competição. A obra aborda conceitos cruciais como a acumulação primitiva de capital nas regiões que o autor denomina de “periferia do capitalismo”, um fenômeno que difere das experiências centrais ao redor do mundo por suas particularidades históricas e estruturais. Haddad explora como o conhecimento se tornou um fator de produção central na economia contemporânea, redefinindo as relações de trabalho, as estratégias de inovação e as estruturas sociais. Ele também se debruça sobre as novas configurações de classe que emergem nesse cenário de transformações aceleradas, marcadas pela precarização e pela polarização econômica. Para o ministro, a tendência é que a desigualdade continue a se aprofundar, a menos que haja uma intervenção estatal robusta e planejada. Ele argumenta que, embora o Estado possa mitigar os efeitos mais severos do desenvolvimento capitalista e organizar a sociedade em torno de uma desigualdade moderada — o que, de fato, tende a reduzir as tensões sociais e promover maior coesão —, quando o sistema é deixado à própria sorte, sua dinâmica intrínseca conduz a uma desigualdade absoluta. Nesse ponto, as diferenças econômicas e sociais se transmutam em contradições profundas, gerando processos conflitivos que, segundo Haddad, marcam o momento atual da sociedade global, exigindo uma reavaliação urgente das políticas econômicas e sociais vigentes.

A Ascensão da China e os Processos de Desenvolvimento no Oriente

A obra de Haddad, que compila e revisita estudos sobre economia política e a natureza do sistema soviético dos anos 1980 e 1990, dedica atenção especial aos desafios impostos pela ascensão da China como potência global. O ministro buscou compreender o que ocorreu nos países do Oriente que se encaixava em um padrão único de acumulação primitiva de capital, distinto tanto da escravidão nas Américas quanto da servidão no Leste Europeu. Ele explica que, embora esses processos tenham suas particularidades regionais e cronológicas, todos convergiram para objetivos semelhantes de desenvolvimento industrial e modernização econômica. Haddad salienta que as revoluções no Oriente, ao contrário das observadas no Leste Europeu e nas Américas, possuíam um caráter antissistêmico e anti-imperialista, buscando romper com a subordinação externa e afirmar a soberania nacional. Curiosamente, o despotismo e a violência do Estado nesses contextos serviram a propósitos de industrialização acelerada, um caminho que não foi seguido em outras regiões, onde a acumulação foi predominantemente baseada na exploração de recursos naturais ou na dependência externa. Internamente, essas foram formas ultracoercitivas e violentas de acumulação de capital, impondo sacrifícios sociais imensos, mas externamente, elas emanavam uma potência antissistêmica que ressoava com povos em busca de liberdade e emancipação nacional. Haddad faz questão de frisar que, embora se trate de uma revolução, ela não se configurou como uma revolução socialista no sentido clássico da emancipação humana, o que gera distinções significativas em suas consequências sociais e políticas. Sobre o sucesso ou fracasso desses processos, o ministro avalia que houve um avanço notável no desenvolvimento das forças produtivas e na mercantilização da terra, do trabalho e da ciência, catapultando essas sociedades para um novo patamar de influência global. No entanto, em relação aos ideais que motivaram os líderes revolucionários, como a construção de uma sociedade mais igualitária ou a emancipação humana plena, pode-se argumentar que esses objetivos não foram completamente atingidos, evidenciando uma contradição inerente a esses modelos de desenvolvimento que priorizaram o crescimento econômico acima de outras dimensões sociais e éticas.

Desafios Contemporâneos e a Necessidade de Reinterpretação

A análise de Fernando Haddad, apresentada em seu novo livro “Capitalismo Superindustrial” e reforçada em suas declarações públicas, oferece uma perspectiva multifacetada sobre os desafios cruciais que o Brasil e o mundo enfrentam na contemporaneidade. As reflexões do Ministro da Fazenda não se limitam a uma crítica superficial, mas aprofundam-se nas raízes históricas e nas dinâmicas econômicas que perpetuam a desigualdade e fragilizam as instituições democráticas. A ideia de que a classe dominante brasileira entende o Estado como uma propriedade privada, em vez de um instrumento de bem-estar coletivo, é central para compreender muitas das tensões políticas e sociais do país, bem como a dificuldade em implementar reformas estruturais. Essa apropriação histórica, cujas origens Haddad remonta à transição pós-abolição e à Proclamação da República, cria um *status quo* que se mostra extremamente resistente a qualquer forma de contestação, colocando em risco a própria estabilidade democrática e a governabilidade. A discussão sobre o “Capitalismo Superindustrial” complementa essa visão, ao contextualizar as especificidades brasileiras dentro de um panorama global de crescente desigualdade e competição, onde a acumulação de capital e a mercantilização de todos os aspectos da vida — incluindo o conhecimento e a força de trabalho — redefinem as estruturas de poder e as relações sociais. Haddad nos convida a refletir sobre a inerente contradição de um sistema que, quando desregulado e sem freios estatais, caminha inexoravelmente para uma desigualdade absoluta, transformando diferenças sociais e econômicas em conflitos latentes e explícitos. A análise dos processos de desenvolvimento no Oriente, com suas revoluções antissistêmicas e o uso da violência estatal para industrialização, adiciona outra camada de complexidade, sugerindo que o progresso econômico e o desenvolvimento das forças produtivas nem sempre caminham lado a lado com a emancipação humana ou com os ideais revolucionários originais. Em última instância, a obra e as declarações de Haddad sublinham a urgente necessidade de uma reinterpretação crítica da história e da economia global. Somente por meio de um entendimento aprofundado desses mecanismos e de uma ação política consciente será possível conceber e implementar políticas eficazes que busquem fortalecer a democracia, mitigar as desigualdades sociais e econômicas, e garantir que o Estado, de fato, sirva aos interesses de toda a sociedade e não apenas aos de uma elite privilegiada.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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