O debate sobre raça no Brasil ganha contornos complexos e frequentemente distorcidos, especialmente no que tange à compreensão da mestiçagem e seu papel na estrutura social. Observa-se um equívoco fundamental ao se tentar traçar paralelos diretos entre as abordagens de grupos progressistas brasileiros e as estratégias da extrema direita europeia no âmbito racial. As realidades históricas e as manifestações da discriminação em cada contexto são intrinsecamente distintas, exigindo análises que respeitem essas particularidades. Enquanto as críticas progressistas à miscigenação e à ideologia da “democracia racial” buscam desvelar a perpetuação de desigualdades, a extrema direita no Brasil tem empregado a exaltação da miscigenação como uma ferramenta retórica para negar a existência do racismo estrutural e, consequentemente, barrar iniciativas de reparação e justiça social. Este cenário sublinha a urgência de uma discussão aprofundada sobre como o conceito de mestiçagem é utilizado e instrumentalizado em diferentes agendas políticas.
A Crítica Progressista à Ideologia da Miscigenação e Suas Razões
Desvendando o Mito da Democracia Racial no Brasil
A percepção de que o Brasil é uma nação intrinsecamente mestiça, resultado de séculos de interações étnicas e culturais, é um fato inegável. Contudo, a crítica formulada por grupos progressistas e movimentos sociais não busca refutar essa realidade biológica e social, mas sim desconstruir a narrativa simplista e muitas vezes perniciosa que a acompanha: a ideologia da “democracia racial”. Esta ideologia, popularizada ao longo do século XX, sugere que a miscigenação teria naturalmente dissolvido as tensões raciais, criando um convívio harmonioso onde o racismo simplesmente não existiria ou seria apenas uma questão individual e pontual, sem raízes estruturais.
Para os pensadores e ativistas progressistas, essa visão idílica é uma camuflagem, uma “artimanha” que serve para obscurecer as profundas e persistentes desigualdades raciais que marcam a sociedade brasileira. A argumentação central é que a exaltação da miscigenação, desacompanhada de um reconhecimento explícito do racismo estrutural, funciona como um mecanismo de negação. Ao invés de promover a equidade, ela perpetua a invisibilidade das minorias raciais, minimiza suas lutas e deslegitima suas demandas por justiça e reparação. É crucial entender que a análise progressista não nega a mistura étnica, mas questiona o modo como essa mistura é interpretada e usada para mascarar uma história de exploração e discriminação contínuas. A intenção é mover a discussão da mera constatação da mistura para a análise das hierarquias e injustiças que persistem, apesar — ou até mesmo por causa — da complexa formação racial brasileira.
A Instrumentalização da Mestiçagem pela Extrema Direita Brasileira
O Negacionismo Racial e a Barreira Contra a Justiça Reparadora
Em um polo oposto à análise crítica progressista, a extrema direita brasileira tem encontrado na narrativa da mestiçagem uma ferramenta poderosa para sua própria agenda política. Diferente do reconhecimento da complexidade histórica e social buscado pelos movimentos progressistas, a abordagem da extrema direita é instrumental e visa, primariamente, a negação categórica do racismo. Para essa corrente política, o fato de o Brasil ser um país majoritariamente mestiço serviria como prova irrefutável de que não há racismo sistêmico ou estrutural; haveria, sim, uma sociedade harmoniosamente integrada, onde as distinções raciais teriam sido superadas pela miscigenação generalizada.
Essa interpretação distorcida e seletiva da mestiçagem tem consequências diretas e severas para o avanço das pautas raciais no país. Ao argumentar que a mistura de raças eliminou o racismo, a extrema direita descredibiliza as denúncias de discriminação, marginaliza as experiências de milhões de brasileiros negros e indígenas e, crucialmente, impede o debate e a implementação de políticas públicas afirmativas. A lógica é simples: se não há racismo, não há necessidade de reparações históricas, de cotas raciais em universidades ou concursos, nem de qualquer outra medida que busque corrigir séculos de desigualdades enraizadas. A miscigenação, assim, é cooptada e transformada em um escudo ideológico, uma falácia que esvazia a legitimidade das reivindicações por justiça racial, servindo para manter o status quo e perpetuar privilégios históricos. É uma estratégia calculada para silenciar vozes e desmantelar avanços conquistados na luta por equidade.
O Cenário Atual e os Desafios Urgentes no Combate ao Racismo no Brasil
A divergência fundamental entre as abordagens progressistas e da extrema direita em relação à mestiçagem e ao racismo revela um dos maiores desafios para a construção de uma sociedade mais justa no Brasil. Enquanto uns buscam aprofundar a compreensão das estruturas que perpetuam a desigualdade, outros se valem de simplificações para negar a própria existência do problema. A compreensão de que o Brasil é uma nação mestiça não deve, em hipótese alguma, ser utilizada como um salvo-conduto para ignorar as manifestações diárias de discriminação e a persistência de um racismo entranhado nas instituições e nas relações sociais. A mestiçagem, por si só, não é antídoto contra o preconceito; ao contrário, a sua idealização pode, paradoxalmente, alimentar a invisibilidade das questões raciais.
Para avançar no combate ao racismo, é imperativo desconstruir as narrativas que o minimizam ou o negam. Isso exige um compromisso com a educação antirracista, a implementação e fiscalização de políticas públicas que promovam a equidade e o reconhecimento pleno da diversidade étnico-racial do país, com suas especificidades e demandas. A justiça racial não se alcança pela mera constatação da mistura, mas sim pelo reconhecimento das injustiças históricas, pela valorização das identidades marginalizadas e pela criação de mecanismos efetivos de reparação e inclusão. O cenário político atual exige clareza e firmeza na distinção entre a crítica legítima às ferramentas ideológicas do racismo e a apropriação cínica de fatos históricos para propósitos de negação. O futuro do Brasil, como nação verdadeiramente democrática e equitativa, depende da capacidade de enfrentar o racismo de frente, sem subterfúgios, abraçando a complexidade de sua formação sem permitir que ela se torne um véu para a injustiça.
Fonte: https://redir.folha.com.br





