O cenário político e socioeconômico brasileiro frequentemente provoca debates intensos sobre o rumo do país. Uma percepção generalizada, em diversos estratos sociais, aponta para uma sensação de que a nação, em seu percurso histórico, desviou-se de um ideal preestabelecido. Esta análise crítica levanta uma questão fundamental: as dificuldades e retrocessos observados são frutos de um erro intrínseco no modelo de desenvolvimento adotado, ou seriam resultado de expectativas desalinhadas sobre o que o Brasil realmente poderia e deveria se tornar? A ambição de construir um país próspero, economicamente aberto, socialmente solidário, genuinamente republicano e regido de forma irrestrita pelas leis, e não pela discricionariedade de indivíduos, permeia o imaginário coletivo. Contudo, a materialização desses pilares tem se mostrado um desafio complexo, com avanços e recuos que marcam a identidade e as perspectivas futuras da sociedade brasileira, impulsionando a necessidade de uma reflexão aprofundada sobre seu caminho.
A Contraditória Busca pela Prosperidade e Abertura
Desafios Econômicos e a Integração Global
A aspiração por um Brasil próspero, com uma economia robusta e equitativa, tem sido uma constante na agenda nacional. Contudo, a concretização desse objetivo esbarra em desafios estruturais persistentes. Ao longo de décadas, o país alternou períodos de crescimento significativo com crises profundas, marcadas por inflação, instabilidade fiscal e baixo crescimento da produtividade. A desigualdade de renda e a concentração de riqueza persistem como feridas abertas, limitando o acesso a oportunidades para grande parte da população e impedindo que a prosperidade se traduza em bem-estar social generalizado. A busca por uma economia “aberta”, capaz de competir no cenário global, também enfrenta obstáculos. Barreiras tarifárias, complexidade tributária, infraestrutura deficiente e uma burocracia excessiva dificultam a plena integração do Brasil em cadeias de valor internacionais. A falta de previsibilidade regulatória e a fragilidade do ambiente de negócios afastam investimentos essenciais para a modernização e diversificação econômica, comprometendo a competitividade e o potencial de crescimento sustentado.
A Fragilidade das Instituições e o Império da Lei
Do Patrimonialismo ao Estado Democrático de Direito
O ideal de um Brasil solidário, republicano e governado inequivocamente pelas leis, e não pela vontade de indivíduos, representa a essência de um Estado Democrático de Direito. No entanto, a trajetória brasileira tem sido uma luta contínua contra as raízes profundas do patrimonialismo, do clientelismo e da corrupção, que historicamente minam a confiança nas instituições e distorcem a aplicação da justiça. A construção de uma sociedade solidária, onde os direitos sociais são plenamente garantidos e a cidadania exercida por todos, enfrenta desafios na implementação de políticas públicas eficazes e na superação das profundas clivagens sociais. O republicanismo, que pressupõe a prevalência do interesse público sobre o privado, ainda é um projeto em construção. A cultura de desrespeito às normas, a impunidade em certos segmentos e a manipulação das estruturas estatais para benefício próprio ou de grupos específicos são manifestações que contradizem a promessa de um governo pautado pela legalidade e impessoalidade. A percepção de que “as leis não são para todos” corrói a base da legitimidade democrática e afasta a nação do ideal de um sistema onde a justiça e a equidade são a norma, não a exceção.
O Horizonte da Nação: Reavaliando o Futuro e as Expectativas
Diante do quadro de desafios e das ambivalências históricas, a questão central permanece: o Brasil “deu errado” ou, de fato, as expectativas nutridas pela sociedade estavam desalinhadas com a realidade e a complexidade de seu processo de desenvolvimento? A hipótese de expectativas equivocadas sugere que, talvez, o ideal de um país próspero, aberto, solidário, republicano e estritamente governado pelas leis não fosse um destino inevitável, mas sim uma aspiração que exigia esforços contínuos e escolhas políticas e sociais que nem sempre foram feitas ou sustentadas. O desenvolvimento nacional é um processo orgânico, influenciado por fatores internos e externos, e por uma multiplicidade de atores e interesses. Avaliar a trajetória do Brasil sob essa ótica implica reconhecer que a construção de uma nação ideal é uma jornada constante, e não um ponto final a ser alcançado. Para que o horizonte seja promissor, é imperativo reavaliar os objetivos, fortalecer as instituições democráticas, combater as desigualdades, promover a ética na política e incentivar a participação cívica. Somente através de um compromisso renovado com a reforma estrutural e a valorização do Estado Democrático de Direito será possível pavimentar o caminho para um Brasil que, mesmo em sua complexidade, avance em direção aos seus mais nobres ideais de prosperidade e justiça para todos.
Fonte: https://redir.folha.com.br






