Uma Trajetória Moldada pela Resistência e Ideologia
Militância na Ditadura, Exílio e o Retorno à Luta Democrática
A vida de Renato Rabelo foi intrinsecamente ligada aos momentos mais turbulentos e decisivos da história política brasileira. Sua militância teve início na juventude, destacando-se como vice-presidente nacional da União Nacional dos Estudantes (UNE) durante os anos de chumbo da ditadura militar, instaurada em 1964. Nesse período de intensa repressão, Rabelo demonstrou coragem e convicção, tornando-se uma voz ativa na resistência democrática. Posteriormente, ele se integrou à Ação Popular (AP), uma das mais relevantes organizações políticas de esquerda da época, desempenhando um papel fundamental no núcleo dirigente que, em 1973, conduziu a histórica incorporação da AP ao Partido Comunista do Brasil.
A perseguição política, uma triste realidade para tantos ativistas da época, também atingiu Renato Rabelo. Em 1976, num período em que diversos dirigentes do PCdoB foram brutalmente assassinados, presos e torturados pelo regime, Rabelo foi forçado ao exílio na França, onde permaneceu até o advento da Lei da Anistia, em 1979. Seu retorno ao Brasil marcou a retomada de sua ativa participação política, impulsionado pela efervescência democrática que começava a despontar. Essa fase de sua vida não apenas forjou seu caráter resiliente, mas também aprofundou seu compromisso com a reconstrução democrática e a defesa dos direitos humanos, pilares de sua atuação política nas décadas seguintes.
Liderança, Visão Estratégica e Articulação Política no PCdoB
O Legado de Uma Presidência e Contribuições Teóricas Essenciais
A fase mais proeminente da liderança de Renato Rabelo no Partido Comunista do Brasil ocorreu entre 2001 e 2015, quando assumiu a presidência da sigla. Durante seu mandato, Rabelo consolidou-se como um pensador e estrategista, desempenhando um papel crucial no desenvolvimento teórico e político do partido. Ele foi reconhecido por seu vasto “aporte de ideias e formulações ao acervo teórico, político e ideológico do Partido”, conforme destacados pelos membros da legenda. Suas contribuições foram essenciais para enriquecer o pensamento tático, estratégico e programático do PCdoB, influenciando significativamente a práxis da organização na complexa arena da luta de classes brasileira.
Além de sua liderança interna, Rabelo dedicou-se intensamente ao fortalecimento das relações internacionais do PCdoB, estabelecendo e estreitando laços com partidos e governos de países socialistas, notadamente China, Vietnã e Cuba. Essa diplomacia partidária foi vital para a construção de pontes ideológicas e para a projeção da visão do PCdoB no cenário global. No âmbito nacional, Renato Rabelo foi um dos principais articuladores, ao lado de João Amazonas, da formação da Frente Brasil Popular. Essa importante aliança, que reunia o Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido Socialista Brasileiro (PSB) e o próprio PCdoB, teve um papel histórico ao lançar, em 1989, a primeira candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República, marcando um divisor de águas na política brasileira e na construção de um campo progressista mais amplo.
Repercussão e o Legado Duradouro de um Militante Histórico
O falecimento de Renato Rabelo provocou uma onda de manifestações de pesar e homenagens por todo o espectro político brasileiro, especialmente entre os setores progressistas. Diversas lideranças e personalidades expressaram sua tristeza e reconhecimento pela dedicação de Rabelo à causa. A ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais do Governo, Gleisi Hoffmann, manifestou profunda tristeza pela perda do companheiro Renato Rabelo. Em suas redes sociais, ela destacou a dedicação de Rabelo desde a juventude à defesa dos trabalhadores, do socialismo e do Brasil, ressaltando sua coragem ao enfrentar a ditadura, a perseguição e o exílio. Hoffmann ressaltou que Rabelo entregou sua inteligência e energia por esses ideais.
A deputada federal Jandira Feghali, também do PCdoB, prestou uma emocionante homenagem ao ex-presidente, descrevendo-o como um grande amigo, referência ideológica, política e afetiva. Feghali enfatizou o papel de Rabelo como um dos maiores construtores da história do Brasil, dedicando sua vida inteira à luta pela democracia, pela soberania nacional, pelos direitos sociais e pelo socialismo. A partida de Renato Rabelo não é apenas a perda de um líder, mas também de um intelectual e estrategista que contribuiu imensamente para o debate e a prática política da esquerda brasileira. Seu legado de resistência, visão e compromisso social continuará a inspirar novas gerações de militantes e a fortalecer os valores democráticos e progressistas no país. O Brasil, na visão de seus companheiros, perdeu uma voz importante de ideias e de luta.






