O embaixador de Cuba no Brasil, Adolfo Curbelo Castellanos, classificou recentemente as rigorosas medidas de bloqueio econômico e energético impostas pelos Estados Unidos (EUA) à nação caribenha como uma “política genocida”. Essa forte declaração emerge em um cenário de intensificação das sanções, que se estendem por mais de seis décadas desde a Revolução Cubana de 1959. As ações estadunidenses, particularmente aquelas direcionadas ao fornecimento de petróleo, visam, segundo o diplomata, privar a população cubana de seus meios essenciais de subsistência. A soberania cubana, e por extensão a de outras nações, estaria sendo gravemente violada, condenando o povo ao que ele descreve como extermínio. Esta reportagem detalha as ramificações de tal política e as estratégias de resistência de Havana diante da crise energética e humanitária.
A Escalada do Bloqueio Econômico e a Acusação de Genocídio
Medidas Coercitivas e o Contexto Geopolítico
A política de bloqueio econômico e comercial dos Estados Unidos contra Cuba, que perdura há 66 anos, tem sido descrita pelo embaixador Adolfo Curbelo Castellanos como uma “guerra não convencional” com efeitos devastadores sobre a ilha. A história do embargo remonta às primeiras medidas adotadas logo após a Revolução Cubana de 1959, mas tem visto um endurecimento significativo nos últimos anos. Durante o primeiro mandato do ex-presidente Donald Trump, foram implementadas mais de 243 medidas adicionais, as quais, segundo o diplomata, permaneceram em vigor até mesmo durante a presidência de Joe Biden, acentuando a pressão sobre Havana.
O ponto de inflexão mais recente ocorreu em 29 de janeiro, quando o ex-presidente Donald Trump emitiu uma nova Ordem Executiva, classificando Cuba como uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança de Washington. A justificativa para tal medida é o alinhamento de Havana com potências como Rússia, China e Irã, que os EUA veem como rivais estratégicos. Essa decisão prevê a imposição de tarifas comerciais e outras sanções a qualquer país que ouse fornecer ou vender petróleo a Cuba, agravando ainda mais a já frágil situação energética do país. “Sem energia, tudo fica comprometido”, afirmou Curbelo. “O que eles fizeram foi condenar o povo cubano ao extermínio. Um país como Cuba, que precisa de petróleo para gerar eletricidade, simplesmente não pode importá-lo no exercício de seu direito soberano.” Ele acrescentou que essa política viola não apenas a soberania de Cuba, mas também a de outras nações, ao ditar com quem podem ou não comercializar.
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, também denunciou a decisão de Trump, classificando-a como mais uma tentativa de derrotar a Revolução Cubana, que estabeleceu o primeiro governo de inspiração comunista na América Latina, desafiando a tradicional política de Washington para a região. As sanções buscam, em última instância, subjugar Cuba pela via econômica e energética, cortando seus meios de subsistência e forçando uma mudança de regime. As ações diretas contra navios transportadores de petróleo, incluindo companhias de seguros e embarcações que se dirigiam a Cuba, exemplificam a tática de guerra não convencional mencionada pelo embaixador, visando estrangular o fornecimento vital de combustível.
Crise Energética e a Resiliência Cubana
Impactos Devastadores e Estratégias de Sobrevivência
A dependência energética de Cuba é um fator crítico na sua vulnerabilidade ao bloqueio. Até 2023, cerca de 80% da energia consumida na ilha provinha de derivados de petróleo, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE). Com a imposição de tarifas e ameaças a países fornecedores, o fluxo de petróleo tem sido severamente comprometido, resultando em uma profunda crise energética com efeitos “devastadores” sobre a população cubana. A escassez de combustível se traduz em longos apagões em todo o país, afetando serviços essenciais, como hospitais, escolas e centros de produção de alimentos, além do transporte da população.
Diante desse cenário, Cuba tem adotado medidas de austeridade extrema para priorizar a proteção dos setores mais vulneráveis e essenciais. Isso inclui a organização do trabalho para que as pessoas possam trabalhar de casa, sempre que possível, e a priorização da eletrificação em áreas críticas, como hospitais e escolas. Famílias com crianças que necessitam de eletricidade por condições de saúde específicas também recebem atenção prioritária. Para mitigar o impacto da falta de combustível, o governo cubano tem investido em aumentar a extração e o refino de petróleo no próprio país, buscando reduzir a dependência de importações.
Paralelamente, Cuba aposta fortemente na ampliação da energia solar como uma alternativa sustentável e estratégica. No ano passado, o país conseguiu instalar painéis solares com capacidade para gerar 1.000 megawatts, o que elevou a participação da energia solar fotovoltaica para quase 40% da geração diurna de eletricidade e 10% da geração total nacional. Esse investimento protege o sistema bancário, hospitais, escolas e centros de produção de alimentos com fontes de energia renovável. No entanto, o embaixador reconhece que, apesar desses esforços, o déficit na geração de eletricidade ainda é agudo, exacerbado pela obsolescência da maioria das usinas termelétricas do país e pela falta de capacidade de armazenamento e distribuição. A crise energética também impacta diretamente o turismo, uma das principais fontes de divisas para Cuba. Com a falta de combustível para abastecer aviões, empresas de aviação, como algumas do Canadá, suspenderam voos para a ilha, reduzindo a entrada de moeda estrangeira essencial para a importação de bens, inclusive petróleo. Essa interrupção do fluxo turístico é vista como mais uma faceta da política de bloqueio, visando privar o povo cubano de seus meios de subsistência.
Reações Globais e a Inegociável Soberania Cubana
A comunidade internacional tem reagido ao endurecimento do bloqueio contra Cuba com uma “rejeição generalizada”, segundo o embaixador Adolfo Curbelo. Organizações multilaterais e países expressaram condenação à política dos EUA, que é vista como uma forma de chantagem e agressão. O Movimento dos Não Alinhados, que congrega a maioria dos países do Sul Global, emitiu uma declaração rejeitando a ordem executiva do governo estadunidense. Nações como Rússia e China, além do México, emitiram fortes declarações de rejeição e solidariedade a Cuba, afirmando que prestarão auxílio ao país. A China, por exemplo, doou 70 mil toneladas de arroz, enquanto o México enviou mais de 900 toneladas de ajuda humanitária por via marítima, defendendo seu direito soberano de apoiar Cuba.
Curbelo enfatiza a importância da solidariedade prática, para além da denúncia e do diálogo político. Citando José Martí, o apóstolo da independência cubana, que disse que “fazer é a melhor maneira de falar”, o diplomata defende a mobilização internacional para ajudar o povo cubano a resistir. Ele argumenta que o ataque contra Cuba e Venezuela não é um incidente isolado, mas sim um ataque contra toda a América Latina, que se declarou uma zona de paz. A tentativa de transformar a região em um espaço de conflito e imposição da “lei do mais forte” desafia os princípios de autodeterminação e soberania.
Apesar da intensa pressão, Cuba mantém uma postura inabalável em relação à defesa de sua soberania e independência, declarando-se disposta a usar todos os meios necessários, inclusive armas, se preciso. Contudo, a nação caribenha reiterou sua disposição em manter uma relação respeitosa com os Estados Unidos, incluindo o atual governo, e dialogar em pé de igualdade. No entanto, Cuba não aceita a imposição de condições, a interferência em seus assuntos internos ou qualquer tentativa de subjugação aos interesses dos EUA. A independência e a soberania de Cuba permanecem, para Havana, inegociáveis, reafirmando sua resiliência diante de um dos mais longos embargos da história moderna.