Em decisão histórica, a Corte Superior da Califórnia condenou a Meta e o Google ao pagamento de US$ 3 milhões a uma jovem de 20 anos, reconhecendo o design das plataformas como causa direta de vício severo e danos psicológicos. Em reais isso se aproxima de R$ 16 milhões.
A sentença, proferida nesta quarta-feira (25) no Condado de Los Angeles, encerra a primeira fase de um dos processos mais emblemáticos da última década no setor tecnológico. A autora da ação, Kaley G.M., hoje com 20 anos, relatou ter sido exposta às redes sociais de forma ininterrupta desde os seis anos de idade. O tribunal distribuiu a responsabilidade financeira de forma proporcional ao tempo de exposição e ao impacto dos algoritmos: 70% da condenação recai sobre a Meta (controladora do Instagram e Facebook) e 30% sobre o Google (proprietário do YouTube).
O “Fumo Digital” e os documentos internos
Um dos pontos de virada no julgamento foi a apresentação de documentos internos da Meta, datados de 2015. Os arquivos revelam que executivos da empresa já haviam sido alertados por pesquisadores internos sobre os riscos de vício e o impacto negativo na autoimagem de adolescentes, mas as advertências foram ignoradas em prol de métricas de engajamento.
“A evidência apresentada demonstra que as Big Techs operavam com o que chamamos de ‘cegueira deliberada’. Elas possuíam o diagnóstico do dano, mas escolheram refinar o veneno”, afirmou um dos analistas do setor consultados pelo PIRANOT.
A análise do design viciante também ganhou contornos técnicos. Especialistas compararam o design das redes sociais a máquinas de caça-níquel. O gesto de “puxar para atualizar” e a entrega intermitente de recompensas variáveis mimetizam o funcionamento psicológico dos cassinos.
Impacto global e a crise de saúde mental
Uma empresa europeia de mídia destacou que este veredito é o ápice de uma crise global de saúde mental. No Reino Unido, o Online Safety Act já impõe multas pesadas. A legislação da Austrália, que em 2025 baniu o acesso às redes sociais para menores de 16 anos, serviu como precedente no tribunal.
Já no Brasil, 12,1% dos adolescentes passam mais de sete horas por dia em redes sociais. O risco de depressão aumenta 13% para cada hora adicional após a segunda hora diária. No dia 18 de março de 2026, o Brasil regulamentou o Estatuto da Criança e do Adolescente Digital (ECAD).
“O Brasil deixou de ser um espectador para se tornar um protagonista na regulação digital. A condenação nos EUA valida a tese de que o design não é neutro; ele é uma escolha editorial e comercial que acarreta responsabilidade civil”, afirmaram juristas ouvidos pela reportagem.
Reações das gigantes
Em nota oficial, a Meta declarou que “discorda veementemente da decisão e pretende recorrer”. O Google manteve postura reservada, argumentando que a saúde mental é um tema “multifatorial”.
A condenação é vista como o início de uma reestruturação profunda na forma como a humanidade interage com as telas.
