Auditores fiscais da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) resgataram 29 imigrantes bolivianos submetidos a condições análogas à escravidão em duas oficinas de costura nos municípios de Betim e Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. As vítimas, que incluíam adolescentes e crianças, produziam peças para as marcas Anne Fernandes e Lore em situações degradantes, segundo relatórios divulgados nesta sexta-feira (24).
As operações, realizadas em 2025, tiveram início a partir de denúncias anônimas e do Disque 100, que apontavam o aliciamento de conterrâneos para jornadas exaustivas. Os trabalhadores, muitos sem registro em carteira, enfrentavam jornadas de até 68 horas semanais, com relatos de trabalho que se estendiam das 6h da manhã até a madrugada, inclusive com a participação de crianças nas atividades.
Condições degradantes e irregularidades
As fiscalizações identificaram uma série de irregularidades graves, incluindo a ausência de Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e INSS, além de remuneração inferior ao salário mínimo. A fiscalização constatou que os trabalhadores viviam nos próprios locais de produção ou em imóveis superlotados, com instalações elétricas improvisadas, risco de incêndio e acúmulo de materiais inflamáveis.
O ambiente era quente, sem ventilação adequada e com mobiliário precário. Em um dos locais fiscalizados, um bebedouro estava apoiado sobre um vaso sanitário, evidenciando a falta de higiene. Os trabalhadores não possuíam refeitórios adequados, e o preparo de alimentos ocorria em condições insalubres.
Servidão por dívida e tráfico de pessoas
Os relatórios apontam indícios de tráfico de pessoas e um sistema de servidão por dívida. Os imigrantes, recrutados em situação de vulnerabilidade na Bolívia, tinham descontos em seus salários para cobrir passagens internacionais, moradia e alimentação. A remuneração era feita por produção, com valores ínfimos, como R$ 3 por saia e R$ 10 por calça, o que perpetuava o endividamento e impedia a subsistência digna das famílias.
Em nota, a Lagoa Mundau, dona da marca Anne Fernandes, informou que repudia violações trabalhistas e afirmou que a oficina era um fornecedor autônomo. A empresa declarou desconhecer as irregularidades, contestou a autuação e comunicou a rescisão do contrato. A reportagem buscou posicionamento da marca Lore, mas não obteve resposta até a publicação.
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