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Uma das grandes virtudes do ser humano é o autoconhecimento, quanto mais nos conhecemos, maior é a nossa consciência sobre nós e sobre os outros. São incontáveis autores, livros, textos, pesquisas que discorrem sobre essa capacidade indiscutivelmente humana que é buscar se conhecer. O autodomínio das nossas emoções, a clareza do que somos, o entendimento das nossas capacidades e fragilidades é que nos tornam diferente das demais espécies. Contudo, o autoconhecimento não é uma ciência que se aprende na escola, é uma virtude que vem com o tempo e principalmente com a disponibilidade e coragem para lidar com as próprias sombras, afinal, enxergar nossas virtudes, abraçar aquilo que é bom é relativamente fácil, porém, aceitar e reconhecer nosso lado obscuro não é tão legal assim.
O autoconhecimento é sem dúvida uma das melhores ferramentas que podemos aprender ao longo da nossa vida, ele traz clareza, entendimento, humildade, e posicionamento, contudo, ele não vem sem um custo adicional, em outras palavras, quanto mais tomamos consciência sobre nós, menores são os grupos sociais que iremos fazer parte, de maneira mais didática: o autoconhecimento nos aproxima de uma solidão confortável, pois tendemos a ficar mais seletivos a certos tipos de agrupamento social.
No entanto, se conhecer é um processo que demanda tempo, coragem e principalmente autorreflexão que é o ato de dobrar sobre si, mas para isso acontecer é preciso um elemento indispensável: o silêncio. Ninguém melhora a sua performance nesse sentido diante do puro caos, é preciso uma jornada de silêncio, de quietude para que possamos ter acesso ao nosso interior.
Apesar disso, vivemos no piloto automático. Pesquisadores observaram que aproximadamente dois terços de nossos comportamentos diários são acionados por hábito, sem deliberação consciente (Fonte: Scientists say most of what you do each day happens on autopilot | ScienceDaily). As plataformas digitais foram desenhadas para explorar esse modo automático: enquanto rolamos feeds, reagimos, compartilhamos e consumimos conteúdos efêmeros, nossa atenção é sequestrada. Como alerta o psicólogo Jonathan Haidt, perdemos a capacidade de ficar sem o telefone; gastamos horas em vídeos curtos e não conseguimos permanecer em uma tarefa por mais de 30 segundos (Fonte: Personal tech, social media, and the “decline of humanity” | MIT News | Massachusetts Institute of Technology). O caos digital se confunde com a vida real e a quietude torna-se ameaça.
Esse fenômeno de normalização do caos não nos permite ficar no silêncio, e a ausência do silêncio não gera autoconhecimento, o resultado disso é a produção de uma sociedade distraída, superficial e frágil. Essa falta de consciência nos coloca frente a uma demanda onde temos a obrigação de ser feliz, ou pelo menos postar que estamos felizes o tempo todo.
O lance todo dessa obrigatoriedade de felicidade é que nos afastamos do privilégio do silêncio para o caos digital e nesse ambiente não há espaço para uma vida comum. A obrigatoriedade da felicidade estigmatiza as emoções consideradas “negativas”, como a tristeza ou a frustração, portanto, a régua que usamos para comparar a nossa grama com a do vizinho é a necessidade de sempre estar em barulho, postando, comentando e vivendo uma bolha superficial de felicidade onde somos equivocadamente chamados a nos posicionar mesmo quando não queremos ou simplesmente não precisamos.
Mas estamos distraídos demais para prestar atenção nisso, preferimos o barulho incessante do caos ao desprazer do silêncio. Mas tudo bem, se quisermos continuar distraídos e operando nesse caos, mas não podemos negar os fatos de que estamos adoecendo enquanto sociedade. Segundo o relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde), cerca de 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos anualmente devido à depressão e/ou ansiedade, o que reflete em um custo para a economia global de aproximadamente 1 trilhão de dólares (fonte: OMS e OIT publicam novas diretrizes sobre saúde mental no trabalho | As Nações Unidas no Brasil), ou seja, de alguma forma estamos pagando a conta desse caos com a nossa saúde e produtividade, a epidemia de distração não é apenas uma metáfora: ela tem consequências econômicas e sanitárias.
O mais paradoxal é que, ao fugir do silêncio, abrimos mão de um recurso essencial para resolver problemas e cultivar a criatividade. Estudos de psicologia experimental mostram que deixar a mente vagar pode aumentar a capacidade de solucionar problemas, ampliar a imaginação e fortalecer o senso de identidade (Fonte: Contemplation can help problem-solving and boost creativity, study claims | Health & wellbeing | The Guardian). Ainda assim, subestimamos o valor da contemplação; preferimos o estímulo fácil de um feed infinito (Fonte: New Study Confirms the Value of Solitude – Cal Newport).
Vivemos aquilo que eu chamo no meu livro “A Felicidade Liquida” de a cultura da instantaneidade – os tempos modernos são marcados essencialmente pela urgência e a pressa do consumo de informações precisamos postar, compartilhar, comentar e ter opinião muitas vezes, e de maneira automática, sobretudo, pelo simples fato de seguir as trend tops que estão viralizando no momento. Com isso, temos a percepção de que o tempo passa mais rápido e não damos conta de tudo, para isso, e em busca de validação, consumimos e falamos sobre qualquer coisa, não suportamos mais o prazer do silêncio – até porque o silêncio não vende, não viraliza e não engaja, o caos sim.
O ímpeto das redes sociais propositalmente demanda que tenhamos opinião e posicionamento sobretudo, inclusive daquilo que não dominamos ou não nos interessamos, com isso, quando não manifestamos algo que o tribunal da justiça da internet entende que deveríamos manifestar, há uma onda de julgamentos morais que nos colocam em uma sinuca de bico. E quanto mais exposto a persona for socialmente, maior é a “cobrança” por parte da manada que usa o codinome moderno de “seguidores” tem. Em 2020 o falecimento do ator Chadwick Boseman, o eterno Pantera Negra da saga “Os Vingadores”, teve evidentemente uma repercussão mundial. Pessoas famosas de todos os cantos do mundo fizeram inúmeras postagens com homenagens em memória ao ator que precocemente nos deixou. Essa é uma dinâmica naturalmente comum, é uma forma que as pessoas têm de emitir suas condolências e o mundo moderno da internet nos permite expressar o que sentimos, e é também do jogo digital. O ponto não são as pessoas que se manifestaram, mas aqueles que se mantiveram no silêncio como foi o caso do ator ganhador do Oscar 26, Michael B. Jordan, parceiro de tela de Bosenan no filme Pantera Negra. O silêncio de B. Jordan incomodou alguns dos que estavam imersos no caos do digital. E você não precisa ser famoso para entender isso: Essa mesma dinâmica ocorre também na vida comum – experimente ficar no silêncio do offline e veja o que acontece, você se torna um estanho no ninho.
A falta de silêncio compromete o autoconhecimento e nos empurra para uma alegria líquida, frágil, que exige fotos sorridentes enquanto ignoramos dores legítimas. O banheiro, que deveria ser o último refúgio de intimidade, virou extensão da timeline. Não conseguimos desligar nem por alguns minutos. Preenchemos cada intervalo com reels porque, no fundo, tememos o que o silêncio pode nos revelar. Alimentamos, voluntariamente, uma cultura de hiperestimulação que nos torna distraídos, superficiais e emocionalmente frágeis. Estamos nos tornando incapazes de conviver com o silêncio, escrever esse texto por si só, demandou de mim uma grande capacidade de ficar simplesmente quieto, me desconectar dos diversos estímulos que recebo ao longo de algumas horas do dia, é uma jornada de desintoxicação necessária.
Se quisermos recobrar a lucidez, precisaremos resgatar o direito ao recolhimento. Isso não é um luxo contemplativo, mas um ato de insubordinação frente ao algoritmo. Implica silenciar o celular, suportar a ansiedade da espera e reivindicar pequenas performances do teatro digital. O silêncio, antes de ser incômodo, é a condição para qualquer forma de clareza. Ele nos distancia da manada e, por isso, nos conduz a solidões seletivas – um preço baixo a pagar por manter a saúde mental. Nessas pausas, a mente repassa os acontecimentos, organiza emoções e descobre novas ideias, e sem elas, acumulamos sujeira emocional e intelectual. Tal como descrevo em meu livro Felicidade Líquida, a busca constante por estímulos é anestesia temporária, quando o barulho cessa, emergem as questões que evitamos, as dores que abafamos, os projetos que adiamos. Reconquistar o direito ao recolhimento é aceitar que o desconforto do silêncio é mais fértil do que a falsa paz do ruído. É o passo seguinte necessário para enfrentarmos o fenômeno que batizei de “morte da atenção”. Na próxima e última parte desta série, “A morte da atenção: ninguém termina nada”, mergulharemos no desdobramento desse diagnóstico. A incapacidade de suportar o silêncio alimenta um fenômeno ainda mais alarmante: a morte da atenção. Não apenas evitamos a introspecção, mas também nos tornamos incapazes de concluir tarefas, livros, relacionamentos. Nosso tempo é fatiado em micro doses de entretenimento, e a noção de completude se dissolve. Se hoje o silêncio virou insuportável, amanhã talvez nos falte até a paciência para concluir a próxima frase.
Danilo Olegario
Sócio da Rhoer Consultoria de Negócios e Escritor









