O Fenômeno da Turbulência e o Cenário Sul-Americano
A Liderança Inesperada da Rota Mendoza-Santiago no Ranking Global
A rota que liga o Aeroporto Internacional El Plumerillo (MDZ), em Mendoza, Argentina, ao Aeroporto Internacional Arturo Merino Benítez (SCL), em Santiago, Chile, consolidou-se como a mais turbulenta do mundo. Este percurso, que atravessa a imponente Cordilheira dos Andes, tem demonstrado consistentemente os maiores índices de agitação atmosférica, mantendo a liderança no ranking por dois anos consecutivos. A particularidade geográfica desta região é um dos principais catalisadores para tal fenômeno. A presença de montanhas elevadas interfere significativamente nos padrões de vento, forçando as massas de ar a subirem e descerem rapidamente, criando as condições ideais para a ocorrência de turbulência orográfica, um tipo de turbulência mecânica.
O impacto da geografia não se limita a esta rota específica. A América do Sul, com sua vasta extensão da Cordilheira dos Andes, figura proeminentemente na lista das dez rotas aéreas mais turbulentas globalmente. Além do trajeto Mendoza-Santiago, outros três percursos na região ocupam posições de destaque: a quarta, a quinta e a sétima colocações. Curiosamente, nenhuma rota que cruza o território brasileiro integrou este seleto e agitado grupo, o que pode ser atribuído à ausência de grandes cadeias montanhosas com características semelhantes às andinas em suas rotas aéreas mais frequentadas. A China também se destaca no ranking, refletindo a influência do Himalaia em suas rotas domésticas e internacionais. A topografia montanhosa age como uma barreira natural para as correntes de vento, causando perturbações no fluxo de ar que se manifestam como turbulência para as aeronaves que as atravessam, um desafio constante para a aviação.
Entender a dinâmica por trás da turbulência é fundamental para a segurança e o conforto dos passageiros. A intensidade dessas agitações pode variar consideravelmente, desde leves tremores até movimentos mais abruptos que exigem atenção redobrada da tripulação e dos passageiros. A constante monitorização e aprimoramento das previsões meteorológicas em áreas de alta incidência de turbulência são cruciais para que as companhias aéreas possam planejar suas rotas de maneira mais eficiente, buscando alternativas ou ajustando as altitudes de voo para minimizar a exposição a essas condições adversas. A natureza imprevisível do vento e a complexidade do relevo andino tornam a navegação aérea sobre esta região um dos maiores desafios meteorológicos para a aviação comercial global.
Compreendendo a Medição da Turbulência Aérea
Metodologia e Escala de Intensidade Aplicada pela Análise Global
Para determinar as rotas mais turbulentas do mundo, é empregado um método rigoroso de análise de dados meteorológicos. O ranking, compilado anualmente desde 2022, baseia-se em informações detalhadas fornecidas por instituições de renome mundial, como a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos Estados Unidos e o Met Office, o serviço meteorológico oficial do Reino Unido. Essas fontes garantem a precisão e a confiabilidade dos dados utilizados para avaliar a intensidade da turbulência em diferentes corredores aéreos.
O processo de análise abrange um universo significativo de voos, monitorando aproximadamente 10 mil rotas aéreas que conectam os 550 maiores aeroportos do globo. A cada mês, são observados e registrados dados de 20 voos para cada um desses trechos específicos. O resultado anual é uma média ponderada desses dados coletados ao longo dos doze meses, fornecendo um panorama abrangente e estatisticamente relevante da intensidade de turbulência em cada rota. Essa metodologia robusta permite identificar padrões e tendências, contribuindo para a compreensão global dos fenômenos atmosféricos que afetam a aviação.
A intensidade da turbulência é medida utilizando um índice técnico conhecido como EDR (Equivalent Dissipation Rate). Este parâmetro considera uma combinação de fatores, incluindo a velocidade das correntes de vento e a energia dissipada na atmosfera, que se traduz na força com que a aeronave é afetada. Quanto maior o valor do EDR, mais forte e perceptível será a turbulência experimentada a bordo. A escala de EDR é categorizada da seguinte forma: valores entre zero e 20 indicam turbulência leve; de 20 a 40, moderada; de 40 a 60, forte; de 60 a 80, severa; e acima de 80, extrema. É fundamental notar que, mesmo as rotas classificadas como as mais turbulentas do mundo neste levantamento, incluindo a notória rota Mendoza-Santiago, raramente ultrapassam o nível moderado na escala EDR. Essa informação é vital para contextualizar a experiência dos passageiros e reforçar que, apesar da agitação, os voos permanecem dentro dos padrões de segurança estabelecidos pela indústria da aviação.
Conclusões Contextuais sobre a Turbulência na Aviação Global
A presença proeminente da América do Sul no topo do ranking das rotas aéreas mais turbulentas do mundo sublinha a influência inegável da geografia na aviação. A Cordilheira dos Andes, com sua magnificência e complexidade orográfica, atua como um gerador natural de condições atmosféricas desafiadoras para aeronaves. Este cenário não apenas destaca a rota Mendoza-Santiago como um ponto focal de agitação, mas também reforça a necessidade contínua de monitoramento e pesquisa para aprimorar a segurança e o conforto dos voos em regiões montanhosas globalmente. A aviação moderna investe pesadamente em tecnologias de previsão e sistemas de bordo que auxiliam os pilotos a identificar e, quando possível, desviar de áreas de turbulência severa, garantindo a integridade estrutural das aeronaves e a segurança dos ocupantes.
Apesar dos dados que posicionam certas rotas como as mais turbulentas, é crucial enfatizar que a aviação é um dos modos de transporte mais seguros do mundo. A medição da intensidade da turbulência em EDR, que classifica até mesmo as rotas de topo como de nível moderado, serve para contextualizar a experiência para o público. Os passageiros podem esperar alguma agitação em voos sobre os Andes, mas a probabilidade de turbulência severa é mínima. As companhias aéreas e as tripulações são treinadas exaustivamente para lidar com essas situações, e os procedimentos operacionais padrão incluem orientações claras para garantir a segurança a bordo, como o uso do cinto de segurança durante todo o voo.
A contínua coleta e análise de dados sobre turbulência fornecem insights valiosos não apenas para a seleção de rotas e altitudes de voo, mas também para o desenvolvimento de aeronaves mais resilientes e sistemas de previsão meteorológica mais avançados. À medida que o tráfego aéreo global se expande e as condições climáticas podem se tornar mais variáveis, a compreensão aprofundada da turbulência se torna ainda mais relevante. Tais estudos contribuem significativamente para a evolução da segurança aérea, permitindo que a indústria aeronáutica se antecipe a desafios futuros e continue a oferecer viagens seguras e cada vez mais previsíveis, mesmo nas paisagens mais desafiadoras do nosso planeta, como as imponentes montanhas da América do Sul.
Fonte: https://g1.globo.com






