Durante seu segundo mandato, o governo do ex-presidente Donald Trump implementou uma série de profundas e controversas alterações nas regras de entrada e permanência nos Estados Unidos, marcando uma guinada significativa na política imigratória do país. Essas medidas, que abrangeram desde o endurecimento de critérios para vistos e a imposição de novas taxas até a ampliação da vigilância e a revogação de permissões, visavam remodelar o fluxo de estrangeiros, priorizando, segundo a Casa Branca, a segurança nacional e a mão de obra americana. As mudanças impactaram diretamente cidadãos de dezenas de nações, incluindo brasileiros, que se viram diante de um cenário de maior custo, burocracia e incerteza, redefinindo as expectativas para aqueles que buscam oportunidades ou simplesmente desejam visitar solo americano.
Aumento de Custos e Acesso Seletivo
Novas Taxas Elevadas para Vistos Qualificados e de Turista
Em um movimento que visava, segundo o governo Trump, priorizar a contratação de trabalhadores americanos, foi instituída uma nova e substancial taxa para o visto H-1B, destinado a profissionais estrangeiros altamente qualificados. A partir de 21 de setembro de 2025, os solicitantes desse visto, que abrange engenheiros, cientistas e programadores, passaram a arcar com um custo adicional de US$ 100 mil, equivalentes a mais de meio milhão de reais. Especialistas em imigração alertaram que tal valor, sem precedentes, poderia desestimular a entrada de talentos globais nos Estados Unidos, potencialmente comprometendo a competitividade do país em setores estratégicos.
Paralelamente, em abril de 2025, foi anunciada a exigência de um caução para a emissão de determinados vistos de turismo e negócios, com valores que poderiam atingir até US$ 15 mil. Essa medida, aplicada a cidadãos de 38 países, predominantemente da África, Oceania e partes da Ásia – embora o Brasil não estivesse incluído nessa lista específica –, tinha como objetivo declarado reprimir a prática de visitantes que excedem o prazo de validade de seus vistos. A política representava um obstáculo financeiro considerável para cidadãos de nações já fragilizadas, limitando ainda mais o acesso ao território americano.
O “Gold Card”: Residência para Investidores Estrangeiros
Em uma aparente contradição ao endurecimento geral das políticas de imigração, o governo Trump lançou, em dezembro de 2025, o programa “Gold Card”. Essa iniciativa permitia a estrangeiros abastados adquirir residência permanente nos Estados Unidos mediante um investimento significativo. O programa estipulava um aporte de US$ 1 milhão para indivíduos e de US$ 2 milhões para empresas que desejassem obter residência para seus funcionários estrangeiros. Além do montante principal, era exigida uma taxa inicial não reembolsável de US$ 15 mil ao Departamento de Segurança do país. O “Gold Card” foi apresentado como uma forma de atrair capital e gerar empregos, com cerca de 10 mil pessoas já tendo demonstrado interesse no período de pré-registro, segundo o secretário de Comércio. Essa dualidade nas políticas ressaltou a estratégia de atrair investimentos estrangeiros, ao mesmo tempo em que dificultava a entrada de outras categorias de imigrantes.
Intensificação da Burocracia e da Vigilância
Verificação Obrigatória de Redes Sociais e Históricos Digitais
A partir de junho de 2025, os candidatos a vistos de estudante para os Estados Unidos foram submetidos a uma nova e invasiva exigência: manter seus perfis em redes sociais abertos ao público para análise das autoridades americanas. O objetivo declarado dessa medida era identificar “qualquer indício de hostilidade” contra cidadãos, instituições ou princípios dos EUA, levantando preocupações sobre privacidade e liberdade de expressão. Em dezembro do mesmo ano, o governo Trump propôs ampliar essa política, obrigando turistas de países isentos de visto a fornecerem seus históricos de redes sociais dos últimos cinco anos. Caso aprovada, essa regra afetaria cidadãos de 42 países, incluindo importantes aliados como Alemanha, França, Reino Unido e Japão, que tradicionalmente entram nos EUA apenas com uma autorização eletrônica (ESTA), elevando drasticamente a barreira de entrada para milhões de viajantes.
Ampliação das Entrevistas Presenciais para Solicitantes de Visto
Outra alteração que aumentou a burocracia para obtenção de vistos ocorreu em outubro de 2025, quando menores de 14 anos e maiores de 79 anos passaram a ser obrigados a realizar entrevistas presenciais, com poucas exceções. Anteriormente, esses grupos frequentemente eram dispensados da etapa presencial. A mudança afetou cidadãos de todos os países que exigem visto para entrar nos EUA, incluindo os brasileiros, adicionando uma camada de complexidade e tempo ao processo de solicitação. A medida foi justificada como um esforço para aumentar a segurança e a integridade do processo de visto, mas resultou em maior espera e inconveniência para milhares de famílias e idosos.
Restrições Abrangentes e o Legado Migratório
O segundo mandato de Donald Trump foi marcado por um esforço sem precedentes para restringir a imigração e reforçar o controle de fronteiras, culminando em medidas que alteraram fundamentalmente o panorama para milhões de estrangeiros. A política “America First” se traduziu em ações concretas que afetaram desde a concessão de novos vistos até a permanência de indivíduos já em solo americano.
Um balanço divulgado em dezembro de 2025 pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos revelou que, desde o início do segundo mandato em janeiro de 2025, mais de 100 mil vistos haviam sido revogados, um número recorde para o período. Essa revogação massiva, muitas vezes sem aviso prévio ou justificativa clara para os afetados, gerou incerteza e angústia entre comunidades imigrantes e ex-patriadas. A medida foi um sinal claro do endurecimento da postura governamental, indicando que mesmo vistos já concedidos não estavam imunes a revisão e cancelamento.
Ainda em 2025, o governo Trump implementou a proibição total de entrada para cidadãos de 19 países. Uma primeira lista, contendo 12 nações, foi anunciada em junho, seguida pela adição de mais sete em dezembro. As restrições entraram em vigor no início de 2026. A maioria dos países afetados estava localizada na África, e o Brasil, neste caso, não foi incluído na lista. O presidente republicano justificou essas ações com base em preocupações de segurança nacional, ameaças de terrorismo e questões relacionadas à imigração descontrolada, reiterando a prioridade de proteger as fronteiras e os cidadãos americanos.
O conjunto de políticas implementadas por Donald Trump em seu segundo mandato, desde o oneroso “Gold Card” até o congelamento de vistos e a intensa fiscalização de redes sociais, representou uma reconfiguração profunda e abrangente da política de imigração dos Estados Unidos. Tais medidas consolidaram uma abordagem que priorizava o controle, a segurança e a seletividade, impactando diretamente a vida de milhões de indivíduos ao redor do mundo. O legado dessas políticas continua a ser um ponto central de debate sobre o papel dos EUA como destino para imigrantes e a complexa relação entre soberania nacional e direitos humanos.
Fonte: https://g1.globo.com






