Duas novas obras literárias emergem no cenário acadêmico e editorial para dissecar um dos temas mais complexos e sensíveis da atualidade: o antissemitismo e suas intersecções com as críticas ao Estado de Israel. Embora partam de diagnósticos metodológicos e conceituais distintos sobre a manifestação contemporânea da discriminação contra judeus, os estudos do professor Mark Mazower, da renomada Universidade Columbia, e do pesquisador brasileiro Gustavo Binenbojm convergem em uma conclusão inegável: o antissemitismo não é um resquício do passado, mas uma força atuante e em constante mutação no século XXI. A relevância dessas análises reside na capacidade de provocar reflexão sobre como o preconceito se manifesta de formas sutis ou explícitas, exigindo uma compreensão aprofundada para seu combate eficaz, ao mesmo tempo em que se defende a liberdade de expressão em debates geopolíticos.
A Perspectiva do Antissemitismo Estrutural
O conceito de antissemitismo estrutural, abordado em profundidade pela obra de Mark Mazower, professor de história da Universidade Columbia e reconhecido especialista em história europeia, oferece uma lente analítica crucial para compreender a persistência da discriminação contra judeus em sociedades contemporâneas. Longe de ser um fenômeno isolado de ódio individual, o antissemitismo estrutural sugere que preconceitos anti-judaicos estão profundamente arraigados nas instituições, narrativas culturais, discursos políticos e até mesmo em lógicas sociais que, por vezes, operam de maneira velada ou inconsciente. Mazower investiga como estereótipos históricos e preconceitos se sedimentaram ao longo dos séculos, transmutando-se em formas modernas que afetam a vida política, social e econômica de comunidades judaicas ao redor do mundo. Sua pesquisa detalha como certas práticas, legislações ou até mesmo a ausência de representatividade podem perpetuar um ambiente onde o preconceito floresce, mesmo sem manifestações abertas de violência ou discriminação direta. A análise não se limita a atos explícitos, mas se debruça sobre a maneira como a estrutura social e política pode criar um terreno fértil para a difusão de ideias antissemitas, muitas vezes disfarçadas de crítica legítima ou de teoria da conspiração. O livro de Mazower convida à reavaliação das raízes históricas e da resiliência do antissemitismo, sublinhando a necessidade de políticas e conscientização que visem não apenas a punição de atos discriminatórios, mas também a desconstrução de sistemas que os alimentam.
A Natureza Perene da Discriminação
Um dos pontos centrais da obra de Mazower, e onde ele encontra um terreno comum com a pesquisa de Gustavo Binenbojm, é a irrefutável constatação de que a discriminação contra judeus está longe de ser um fenômeno do passado. Ao aprofundar-se no conceito de antissemitismo estrutural, o autor demonstra que as raízes históricas do preconceito se manifestam em novas roupagens, adaptando-se aos contextos políticos e sociais atuais. Não se trata apenas da rememoração de atrocidades passadas, como o Holocausto, mas da observação de incidentes contínuos de profanação de cemitérios, ataques a sinagogas, difusão de teorias conspiratórias em plataformas digitais e a ressurreição de tropos antissemitas em discursos públicos. A obra de Mazower ressalta que o que mudou não é a existência do preconceito, mas suas formas de expressão e disseminação, muitas vezes camufladas em linguagem mais palatável ou politicamente carregada. Essa perenidade da discriminação exige vigilância constante e uma compreensão dinâmica das suas manifestações, desafiando a noção complacente de que o antissemitismo foi superado pela modernidade ou relegado a grupos marginais. Pelo contrário, sua natureza estrutural implica que ele pode emergir em setores da sociedade que se consideram progressistas ou imunes a tais preconceitos, tornando o combate a essa forma de ódio um desafio contínuo e multifacetado.
Críticas a Israel e os Limites do Debate
Em contraponto à abordagem de Mazower, o pesquisador brasileiro Gustavo Binenbojm concentra sua análise nas complexas intersecções entre as críticas ao Estado de Israel e as acusações de antissemitismo, um campo minado onde a liberdade de expressão frequentemente colide com a sensibilidade histórica e a luta contra o preconceito. Binenbojm explora a linha tênue que separa uma crítica legítima às políticas governamentais de Israel – algo comum no cenário geopolítico de qualquer nação – da instrumentalização dessa crítica para veicular ou disfarçar preconceitos antissemitas. Sua obra aborda o fenômeno da “censura” – ou da percepção de censura – que pode surgir quando o debate sobre as ações de Israel é rapidamente rotulado como antissemita, silenciando vozes críticas e inibindo a discussão acadêmica, jornalística e pública. O autor investiga como, em certos contextos, a defesa de direitos palestinos ou a oposição a determinadas políticas israelenses é automaticamente associada a um viés anti-judaico, gerando um efeito inibidor no discurso e na capacidade de análise independente. Binenbojm levanta questões cruciais sobre a definição de antissemitismo no contexto de críticas a Israel, argumentando que nem toda crítica é, por natureza, antissemita, e que a confusão entre os dois termos pode ser prejudicial tanto para a causa palestina quanto para a luta contra o antissemitismo real. Ele advoga por um debate mais sofisticado e menos polarizado, onde as nuances da política externa israelense possam ser discutidas abertamente sem o temor de acusações infundadas, mas também sem perder de vista as manifestações genuínas de preconceito anti-judaico.
O Equilíbrio entre Liberdade de Expressão e Combate ao Ódio
A pesquisa de Gustavo Binenbojm é particularmente relevante ao abordar o delicado equilíbrio que deve ser mantido entre a garantia da liberdade de expressão – pilar fundamental de qualquer democracia – e a necessidade imperativa de combater o discurso de ódio e o preconceito. Ao focar na problemática da “censura a críticas a Israel”, Binenbojm explora como a discussão sobre o conflito israelo-palestino frequentemente se torna um campo de batalha onde os limites da liberdade de expressão são testados. Ele argumenta que a legitimação de críticas a políticas governamentais de qualquer Estado, incluindo Israel, é essencial para a saúde democrática e para a promoção de direitos humanos, mas que essa liberdade não é absoluta e não deve servir de escudo para a disseminação de antissemitismo. O desafio, conforme Binenbojm aponta, reside em discernir onde a crítica política legítima termina e o preconceito antissemita começa, uma distinção que muitas vezes é obscurecida por agendas políticas ou pela falta de compreensão histórica e cultural. O livro propõe a adoção de critérios claros e objetivos para identificar o antissemitismo, evitando a banalização do termo e protegendo, ao mesmo tempo, o direito de expressar discordância política. Essa busca por equilíbrio é vital para que não se instrumentalize o combate ao antissemitismo para silenciar vozes dissidentes, nem que se use a liberdade de expressão como pretexto para propagar o ódio e a intolerância. O trabalho de Binenbojm contribui para um debate mais maduro sobre a responsabilidade no discurso público e a importância da educação para fomentar o pensamento crítico e a distinção entre preconceito e crítica.
Abordagens Convergentes em um Cenário Global Polarizado
Apesar das diferenças conceituais e focais, as obras de Mark Mazower e Gustavo Binenbojm convergem para uma constatação crucial: o antissemitismo, em suas múltiplas facetas, não é uma relíquia histórica, mas uma preocupação viva e premente no cenário global contemporâneo. A singularidade dessas publicações reside na capacidade de iluminar diferentes aspectos de um mesmo problema, demonstrando a complexidade inerente à discriminação contra judeus. Mazower, ao desvendar o antissemitismo estrutural, nos força a olhar para as raízes sistêmicas do preconceito, que persistem e se reinventam. Binenbojm, por sua vez, nos provoca a refletir sobre os limites do discurso, a instrumentalização do termo antissemitismo e a necessidade de proteger a liberdade de expressão sem, contudo, abrir mão do combate rigoroso a todas as formas de ódio. Ambas as análises são indispensáveis em um mundo cada vez mais polarizado, onde a informação é massivamente disseminada e a distinção entre fatos e opiniões, entre crítica e preconceito, torna-se cada vez mais nebulosa. As obras convidam a uma reflexão aprofundada sobre como a sociedade pode, simultaneamente, combater o antissemitismo em todas as suas manifestações – seja ele estrutural ou velado em críticas políticas – e garantir que o debate público sobre questões geopolíticas complexas, como o conflito israelo-palestino, ocorra de forma livre, responsável e informada. A literatura, nesse contexto, reafirma seu papel fundamental como ferramenta para a desconstrução de preconceitos, o fomento do diálogo e a construção de uma compreensão mais justa e equitativa do mundo.
Fonte: https://redir.folha.com.br






