Uma profunda reconfiguração do sistema econômico global tem sido objeto de intensa análise por especialistas e economistas. Longe de ter sido superado, o capitalismo moderno demonstra uma notável capacidade de reinvenção, impulsionado por uma mudança paradigmática na geração de valor. O cerne dessa transformação reside na ascendência vertiginosa dos ativos intangíveis, como softwares, patentes e algoritmos, que hoje ocupam uma posição central na engrenagem produtiva e mercantil. Essa nova fase, frequentemente descrita como “Capitalismo Superindustrial”, redefine a própria essência da acumulação de riqueza. A mercantilização do conhecimento e a inovação contínua emergem como pilares para a obtenção de superlucros, alterando fundamentalmente a dinâmica tradicional entre lucro e renda e elevando a estrutura capitalista a um patamar sem precedentes, com implicações vastas para sociedades e mercados em escala global. Compreender esta metamorfose é crucial para decifrar os desafios e oportunidades da economia contemporânea.
A Ascensão Incontornável dos Ativos Intangíveis na Economia
A Digitalização como Eixo de Valor
A era contemporânea testemunha uma transição notável na composição dos bens mais valiosos para as empresas e, consequentemente, para a economia como um todo. Se antes a solidez de uma corporação era mensurada por suas fábricas, máquinas e infraestrutura física, hoje o cenário é dominado pelos ativos intangíveis. Softwares de gestão, plataformas digitais, algoritmos complexos, bancos de dados proprietários, marcas registradas e, sobretudo, patentes de tecnologias inovadoras, representam a nova fronteira da riqueza. Estes elementos, embora não palpáveis, são os verdadeiros motores da produtividade e da capacidade competitiva. Sua natureza permite escalabilidade exponencial e replicação a custo marginal zero, características que conferem vantagens econômicas disruptivas. Empresas que dominam a criação e exploração desses ativos conseguem penetrar mercados globais com uma velocidade e eficiência antes inimagináveis, redefinindo as barreiras de entrada e o jogo concorrencial. A propriedade intelectual, em suas diversas formas, tornou-se o principal campo de batalha pelo domínio econômico, gerando um ecossistema onde a inteligência e a criatividade são as commodities mais cobiçadas.
A digitalização profunda das operações e dos produtos não apenas transformou a natureza dos ativos, mas também a forma como o valor é criado e distribuído. A cadeia de valor, outrora centrada na manufatura e logística física, agora se estende e se ramifica no ambiente digital. O desenvolvimento de um novo aplicativo ou de uma patente revolucionária pode gerar retornos muito superiores aos investimentos em infraestrutura tradicional. Isso implica que o investimento em pesquisa e desenvolvimento, em capital humano altamente qualificado e em processos de inovação contínua, assume uma primazia estratégica. As empresas líderes neste novo paradigma são aquelas que conseguem não apenas gerar esses ativos intangíveis, mas também protegê-los e monetizá-los eficazmente, seja através de licenciamento, modelos de assinatura ou pela integração em novos produtos e serviços. O controle sobre o código-fonte, os dados e os direitos de propriedade intelectual é, em muitos casos, mais valioso do que a posse de grandes estoques ou amplas instalações físicas, marcando uma virada definitiva na estrutura econômica global.
A Mercantilização do Conhecimento e a Inovação Contínua como Geradores de Superlucros
Equipes Criativas e a Dinâmica do Lucro Excessivo
No cerne do “Capitalismo Superindustrial” reside a premissa de que o conhecimento, em suas múltiplas formas, tornou-se a commodity suprema. Essa mercantilização não se limita à venda de produtos intelectuais acabados, mas se estende ao processo de sua criação. Empresas investem maciçamente na formação e manutenção de equipes criativas, multidisciplinares e altamente especializadas, cuja missão primordial é gerar inovação de forma incessante. Engenheiros de software, cientistas de dados, designers, pesquisadores e especialistas em marketing colaboram em ambientes dinâmicos para conceber novas soluções, aprimorar tecnologias existentes e antecipar as necessidades do mercado. Essa produção contínua de novidades não é um mero diferencial; é a força motriz que garante a obtenção de superlucros, ou seja, lucros que excedem a média de mercado e que resultam de uma vantagem competitiva sustentada por essa capacidade inovadora.
A natureza desses superlucros difere dos ganhos tradicionais. Eles não advêm apenas da eficiência na produção física ou da redução de custos operacionais, mas sim da exclusividade e do valor agregado inerente aos ativos intangíveis gerados. Uma patente de um novo medicamento, um algoritmo revolucionário de inteligência artificial ou uma plataforma de mídia social com milhões de usuários ativos detêm um poder de mercado que transcende a competição baseada em preços. A inovação, nesse contexto, não é um evento pontual, mas um processo cíclico e acelerado, onde a cada nova descoberta ou aprimoramento, a empresa reafirma sua posição dominante e sua capacidade de capturar uma parcela desproporcional do valor gerado. Esse ciclo virtuoso de inovação-exclusividade-superlucro retroalimenta o sistema, incentivando ainda mais o investimento em capital intelectual e em processos de P&D, moldando uma economia onde a capacidade de gerar e proteger conhecimento se traduz diretamente em vantagem econômica duradoura.
Capitalismo Superindustrial: Reconfigurando a Dinâmica entre Lucro e Renda
A emergência do “Capitalismo Superindustrial” redefine não apenas a fonte de valor, mas também a complexa relação entre lucro e renda, impulsionando o sistema a um novo patamar de funcionamento. Anteriormente, o lucro estava intrinsecamente ligado à produção em massa de bens tangíveis e à exploração do trabalho físico e manual. A renda, por sua vez, distribuía-se entre salários, aluguéis e os retornos sobre o capital investido em meios de produção tradicionais. Contudo, a ascensão dos ativos intangíveis e a mercantilização do conhecimento transformaram essa equação. Os superlucros, gerados pela inovação e pela exclusividade da propriedade intelectual, permitem que uma parcela cada vez maior da riqueza seja acumulada por um número menor de empresas e indivíduos, geralmente detentores de capital intelectual e financeiro. Essa concentração de valor impacta diretamente a distribuição da renda, criando disparidades e desafiando modelos econômicos e sociais estabelecidos.
Nesse novo cenário, a capacidade de gerar e controlar ativos intelectuais valiosos confere um poder de barganha sem precedentes. As empresas que detêm plataformas digitais dominantes ou patentes essenciais podem extrair “rendas” em diversas formas – desde royalties até taxas de uso de seus serviços – que se assemelham a monopólios ou oligopólios naturais. Este fenômeno leva a uma desacoplagem entre o crescimento da produtividade, impulsionado pela tecnologia, e o aumento da renda média dos trabalhadores, especialmente aqueles em funções menos qualificadas ou facilmente automatizáveis. A valorização desproporcional do capital intelectual e dos ativos digitais em detrimento do capital físico e do trabalho manual reconfigura as estruturas de poder econômico. O sistema não foi superado, mas sim acelerado e transformado, exigindo uma compreensão aprofundada de suas novas regras e suas implicações para o futuro do trabalho, da desigualdade e da governança global, à medida que a economia se inclina cada vez mais para a produção e o controle do intangível.
Fonte: https://redir.folha.com.br






