Inovação e Escala na Produção Paulistana
Tecnologia e Diversidade em Itaí
No coração do interior paulista, a propriedade da Britchis, localizada em Itaí, tornou-se um exemplo notável de como a agricultura familiar pode aliar tradição e vanguarda tecnológica. Dos seus 194 hectares totais, impressionantes 114 são dedicados exclusivamente ao cultivo da lichia. Este empreendimento, que conta com o apoio técnico da Diretoria de Assistência Técnica Integral (CATI), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, por meio da CATI Regional Avaré, não se limita à variedade clássica Bengal, a mais comum nos mercados do Sudeste brasileiro. A Britchis inovou ao introduzir e cultivar outras sete variedades de lichia, cada uma com características singulares: Fogo, Ouro, Tutti-Frutti, Crocante, Laranja, Gigante e Coração. Essa diversidade não é apenas estética; ela amplia o leque de sabores e texturas disponíveis para o consumidor, além de permitir uma otimização da colheita e adaptação a diferentes nichos de mercado. A variação é notável até mesmo no tamanho e manuseio, onde uma lichia clássica pesa em média 20 gramas, a variedade Gigante pode atingir impressionantes 40 gramas, enquanto a lichia Coração se destaca pela facilidade com que sua casca se rompe sob uma leve pressão, facilitando o consumo. A empresa representa um modelo de produtividade e diversificação em larga escala no agronegócio paulista.
Visão Estratégica e Expansão de Mercado
A incursão da Britchis no mercado de lichia foi motivada por uma visão audaciosa, conforme explica o produtor Ricardo Pinto. Em conjunto com sua esposa Adriana e filhos, ele identificou na fruta um alto potencial de valor agregado, em contraste com a percepção predominante da época. “O que nos atraiu é que é uma fruta que se vende por um preço relativamente alto. E a gente via uma grande oportunidade de trabalhar de forma disruptiva no marketing, na criação de novos produtos, que víamos que não era o foco de produtores brasileiros até então”, afirma Pinto. Essa mentalidade inovadora levou a empresa a buscar a expansão para o mercado externo há cerca de três anos. O sucesso não demorou a aparecer: em 2025, a Britchis foi responsável pela exportação de quase metade de toda a lichia brasileira destinada ao exigente mercado europeu. Esse feito sublinha não apenas a capacidade produtiva da fazenda, mas também a competência em logística, padrões de qualidade e negociação internacional, estabelecendo um novo patamar para a fruticultura paulista e demonstrando que, com estratégia e inovação, é possível transformar um produto sazonal em um item de exportação de alto valor e demanda internacional.
Desafios e Soluções Sustentáveis na Cadeia Produtiva
A Busca por Valor Agregado e Redução de Perdas
A expansão para o mercado internacional, embora bem-sucedida, trouxe consigo um desafio inerente à fruticultura: o descarte de frutas. Embora perfeitamente adequadas para o consumo e ricas em sabor, lichias com pequenas imperfeições estéticas eram invariavelmente rejeitadas pelos rigorosos padrões dos compradores internacionais. Essa exigência, comum em mercados de alto consumo, representava uma perda significativa para a Britchis, tanto do ponto de vista econômico quanto ambiental. Para mitigar esse problema e garantir a sustentabilidade da operação, a solução encontrada foi a implementação de tecnologia de processamento de ponta. Essa abordagem transformou o que antes seria desperdício em novas fontes de receita e produtos inovadores. A estratégia demonstra um compromisso com a otimização dos recursos e a minimização do impacto ambiental, ao mesmo tempo em que maximiza a rentabilidade do negócio. É um exemplo de como a inovação pode resolver problemas complexos na cadeia produtiva agrícola, adicionando valor a cada fruto colhido, independentemente de sua aparência externa, e promovendo a sustentabilidade em todas as etapas do processo.
Novos Produtos e Fortalecimento Regional
Hoje, a tecnologia desempenha um papel crucial na diversificação da produção da Britchis. A polpa da lichia, cuidadosamente descascada e descaroçada, é congelada em ultra-congeladores, permitindo que a empresa garanta renda e oferta do produto durante o ano todo, rompendo com a sazonalidade natural da fruta. Além disso, uma parte da produção é liofilizada, processo que transforma a fruta em um snack crocante, preservando integralmente seus açúcares naturais e nutrientes, sem a adição de conservantes ou aditivos. A versatilidade da lichia, no entanto, não se limita a essas inovações. Ela também dá origem a uma aguardente cristalina e perfumada, de sabor único, e à “passa de lichia”, que, por sua vez, abre caminho para a produção de geleias saborosas e a exótica lichiada, ampliando ainda mais o leque de produtos derivados e atingindo diferentes segmentos de mercado.
Essa operação multifacetada é também um reflexo direto do fortalecimento da Cadeia Produtiva Local (CPL), que abrange 18 municípios da região sudeste paulista. Em 2025, o projeto recebeu um aporte significativo de recursos do Governo do Estado, visando fomentar o desenvolvimento dos pequenos produtores e integrar ainda mais a região em torno da fruticultura da lichia. Conforme explica o engenheiro agrônomo Euvaldo Neves Pereira Junior, chefe da CATI Regional Avaré, a região possui uma vocação natural e histórica para a fruticultura. Ele destaca ainda que “nossa produção foge da época tradicional de outros mercados, o que nos permite oferecer um produto diferenciado quando a oferta global diminui”, conferindo uma vantagem competitiva estratégica para a lichia paulista no cenário internacional e reforçando sua posição como um diferencial no agronegócio global.
A Lichia: Da “Fruta do Amor” ao Símbolo de Potencial Agrícola
A lichia, portanto, é muito mais do que um mero item de consumo sazonal. Se por fora ela ostenta uma armadura vibrante e textural, por dentro guarda uma alma translúcida e doce – uma dualidade que, na China milenar, resume a própria essência do romance e da paixão. A alcunha de “fruta do amor”, que tanto inspira, tem suas raízes fincadas na Dinastia Tang, no século VIII, e é permeada por lendas que atravessaram gerações. A mais conhecida narra que o Imperador Tang Minghuang, movido por uma devoção extrema à sua concubina favorita, Yang Yuhuan, ordenava que mensageiros cruzassem o vasto império chinês em cavalos velozes, dia e noite, em uma corrida contra o tempo, apenas para entregar lichias frescas à sua amada. Esse gesto, grandioso e romântico, solidificou a lichia como um símbolo de afeto e luxo. Até os dias atuais, presentear com lichias na cultura chinesa é um ato carregado de significado, simbolizando paixão duradoura, boa sorte e nobreza de sentimentos, aspectos que se entrelaçam com a mística da fruta.
Essa rica herança cultural se une hoje à inovação agrícola paulista, transformando a lichia em um vetor de desenvolvimento econômico sustentável. A história da Britchis e da Cadeia Produtiva Local (CPL) demonstra como a visão estratégica de produtores, a adoção de tecnologias avançadas e o apoio institucional podem revitalizar um setor, criando valor, gerando empregos e projetando a produção nacional para o mundo. A expansão do mercado da lichia em São Paulo, ao ir além das festividades de fim de ano e investir em novos produtos e mercados, não apenas honra o legado milenar da “fruta do amor”, mas também a posiciona como um exemplo brilhante do potencial da agricultura brasileira em inovar, diversificar e prosperar, consolidando-a como um importante player no agronegócio global e um símbolo da capacidade de adaptação e sucesso do setor.






