Em um dos capítulos mais atípicos da história política do Rio de Janeiro, o comando do Palácio Guanabara repousa agora nas mãos do Poder Judiciário. Desde o dia 24 de março de 2026, o desembargador Ricardo Couto de Castro, de 61 anos, presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), é quem exerce interinamente a chefia do Poder Executivo fluminense.
A ascensão do magistrado ao posto de “comandante” do estado é o resultado direto de um efeito dominó que dizimou a cúpula política eleita. Com a renúncia de Cláudio Castro — que abandonou o cargo na tentativa frustrada de garantir uma candidatura ao Senado — e a vacância no cargo de vice-governador, o estado ficou sem seus representantes diretos. O colapso se aprofundou com o afastamento do presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, impossibilitado de assumir devido aos desdobramentos judiciais que paralisaram o Legislativo.
O Magistrado no Poder
Ricardo Couto de Castro, que assumiu a presidência do TJRJ com o desafio de modernizar o judiciário, agora se vê diante da tarefa hercúlea de manter a máquina pública funcionando. Sua gestão, embora temporária e limitada a atos administrativos essenciais, é o único anteparo contra a anarquia institucional.
O desembargador atua como uma figura de estabilidade em um estado onde, em menos de uma semana, as cadeiras de governador e de presidente da Assembleia Legislativa tornaram-se símbolos de incerteza.
A Eleição Indireta: O Caminho Aberto
Embora o desembargador esteja no comando, o cenário é de transição. A Constituição prevê que, diante da vacância de ambos os cargos do Executivo, o caminho seja a eleição indireta. É aqui que o enredo fluminense ganha contornos ainda mais extraordinários:
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Qualquer Cidadão no Páreo: Com a classe política tradicional sob intenso escrutínio e cercada por restrições eleitorais, a legislação permite que qualquer cidadão comum, desde que preencha os requisitos de elegibilidade (como idade mínima, filiação partidária e ficha limpa), possa ser eleito pelos deputados estaduais para governar o Rio.
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Voto Indireto: Diferente das eleições tradicionais, o destino dos 16 milhões de habitantes do estado será decidido dentro do plenário da Alerj.
O Rio de Janeiro aguarda agora o próximo passo dessa crise sem precedentes. Enquanto o desembargador Ricardo Couto assina decretos emergenciais para garantir a folha de pagamento e o funcionamento de hospitais, os bastidores da política fervem para definir quem será o escolhido pela Alerj para o mandato tampão.
A pergunta que ecoa nas ruas é se o próximo governador virá dos quadros políticos sobreviventes ou se o vácuo de lideranças abrirá espaço para uma figura completamente externa ao sistema, o chamado “governador por voto indireto”. O desfecho pode ocorrer a qualquer momento, conforme os prazos legais da eleição indireta forem oficializados.
