Auditores fiscais da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) resgataram 29 imigrantes bolivianos submetidos a condições análogas à escravidão em duas oficinas de costura nos municípios de Betim e Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. As operações, realizadas em 2025, identificaram que as oficinas produziam peças para as marcas Anne Fernandes e Lore.
As ações tiveram início a partir de denúncias anônimas, inclusive por meio do Disque 100, e de uma investigação que rastreou a cadeia produtiva das empresas. Os relatórios apontam indícios de tráfico de pessoas, com recrutamento de bolivianos em situação de vulnerabilidade trazidos ao Brasil sob falsas promessas de emprego.
Condições degradantes e jornada exaustiva
Na fiscalização envolvendo a Lore Confecções, 16 trabalhadores foram resgatados — 12 homens e 4 mulheres, incluindo um adolescente. Já na operação relacionada à Lagoa Mundau Indústria e Comércio Atacadista de Roupas, dona da marca Anne Fernandes, outras 13 pessoas foram encontradas nas mesmas condições.
Os trabalhadores atuavam sem registro em carteira e sem acesso a direitos básicos como FGTS e cobertura do INSS. A remuneração era feita por produção, com valores que variavam de R$ 3 por saia a até R$ 27 por vestido, frequentemente divididos entre vários trabalhadores. Parte da remuneração era descontada para cobrir despesas como moradia, alimentação e passagens, configurando sistema de servidão por dívida.
As jornadas chegavam a aproximadamente 68 horas semanais, muito acima do limite legal de 44 horas. De segunda a sexta-feira, o expediente médio era de 12 horas e 45 minutos por dia, com relatos de trabalho das 7h até a madrugada. Aos sábados, a jornada seguia das 7h ao meio-dia.
As condições de moradia também eram degradantes. Os trabalhadores viviam nos próprios locais de produção ou em imóveis superlotados, com instalações elétricas improvisadas, ausência de equipamentos de segurança, risco de incêndio e acúmulo de materiais inflamáveis. Em um dos locais, o bebedouro estava apoiado sobre um vaso sanitário.
Posicionamento das empresas
Em nota, a Lagoa Mundau, dona da marca Anne Fernandes, informou que repudia violações trabalhistas. A empresa afirmou que a oficina era um fornecedor autônomo, que não tinha controle sobre a mão de obra e desconhecia as irregularidades. A companhia contestou a autuação e disse ter rescindido o contrato após a operação.
Os relatórios indicam que os valores pagos pelas marcas às oficinas variavam de cerca de R$ 10 a R$ 80 por peça, mas os trabalhadores recebiam apenas uma fração desses valores. Iniciantes chegavam a receber cerca de R$ 1.200 por mês, valor abaixo do salário mínimo. As investigações continuam para apurar responsabilidades na cadeia produtiva e possíveis conexões com redes de tráfico de pessoas.
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