
Mais que um nome sugestivo, “coração fraterno” dá forma às almofadas costuradas por voluntárias para serem distribuídas gratuitamente a homens e mulheres mastectomizados, que tiveram a retirada total ou parcial da mama em decorrência do câncer.
Em Piracicaba, a iniciativa foi acolhida pela Santa Casa que, por meio do Serviço Social, tem acesso às almofadas do coração produzidas na cidade de Americana por Magdalena Cuppi Sandin, uma senhora de 86 anos, e entregues ao Hospital por sua filha, a produtora de alimentos orgânicos, Marina Goretti, que reside na cidade.
O projeto original surgiu nos Estados Unidos, em 2002, quando uma enfermeira atuante na área de oncologia tentou amenizar o incômodo e o desconforto pós-cirúrgico. Logo depois, a ideia foi levada para a Dinamarca e se expandiu para a Europa.
“A mastectomia pode resultar no esvaziamento das axilas, deixando a região sensível e dolorida”, explica Marina Goretti, lembrando que a proposta da norte americana foi adaptar almofadas que aliviassem a dor ao proporcionar apoio para ombros e braços.
É preciso cuidado também com o peso e com o tipo de material utilizado. Cada almofada é cuidadosamente preparada com base em moldes específicos que garantem sua confecção em forma de coração, com tecido tricoline 100% algodão e exatos 150 gramas de enchimento com manta siliconada. “Muitas mulheres dormem e saem com a almofada, que se transformou em acessório durante o período de recuperação pelo efeito terapêutico que produz no pós-operatório”, disse Marina.
Trazida ao Brasil em 2015 por uma artesã de o Projeto Almofadas de Coração ganhou corpo e as páginas da internet, sendo logo incorporado pela estudante de serviço social Fátima Valentim, moradora de Itupeva que abraçou a ideia, reunindo inicialmente quatro amigas em torno da proposta nascendo assim, o Grupo Coração Fraterno.
Hoje, o grupo reúne de 10 a 12 pessoas que se encontram em sua casa todas às terças- feira, das 17 às 20 horas, para a confecção de almofadas entregues por voluntárias a pacientes das cidades de Itupeva, Santo André,Indaiatuba, Jundiaí, Sorocaba, São Paulo, Piracicaba e Americana. O processo de confecção e distribuição das almofadas mobiliza cerca de 20 voluntárias nessas cidades; enquanto algumas costuram, outras distribuem.
FOCO NA HUMANIZAÇÃO – Ao justificar a adesão da Santa Casa ao projeto, a administradora Vanda Petean afirmou que, na medida do possível, a Instituição acolhe todas as ações cujos reflexos resultem em mais segurança, satisfação e qualidade de vida ao paciente. “Trabalhamos com foco na humanização da assistência e o projeto Almofadas de Coração , Grupo Coração Fraterno atende a esta expectativa do Hospital”, disse Vanda, enaltecendo a atuação voluntária de mulheres verdadeiramente comprometidas com o outro. “O voluntariado é reflexo da prática filantrópica e resume bem a essência da Santa Casa”, disse.
De acordo com Adaltiva Gama e Luzia Ferreira, assistentes sociais da Santa Casa que estão à frente do projeto, a ideia é tão apropriada ao ambiente hospitalar que será apresentada ao Conselho Municipal de Saúde no próximo dia 26 de julho, com a proposta de que a iniciativa e seus benefícios sejam estendidos a outras instituições de saúde. “O que é bom tem que ser compartilhado”, afirmaram.
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“EU NÃO ESTOU SÓ; ISSO VAI PASSAR!” – A frase resume o sentimento que tomou conta de Maria das Graças Rodrigues ao receber o primeiro coração fraterno entregue por intermédio da Santa Casa de Piracicaba. Submetida a uma cirurgia para retirada total da mama esquerda em junho, a piracicabana de 66 anos conta que tudo foi muito rápido.
“Em outubro do ano passado, tive a confirmação de que era portadora de um câncer de mama e que precisaria passar por uma cirurgia. Foi quando meu chão caiu”, lembra. Mas como, segundo ela, tudo tem um propósito, meses depois, o chão e o mundo de Maria da Graça foram tomando forma e cor novamente.
“O coração fraterno teve impacto surpreendente no processo de minha recuperação”, relata a paciente, lembrando que a sensação naquele momento foi de superação. “Alguém que passou pela mesma situação estava ali, me concedendo apoio e me entregando um exemplo palpável de que a vida continua com a força do amor em forma de coração, eu não tinha outra opção a não ser acreditar que, sim, era possível superar tudo aquilo com o apoio de pessoas iluminadas e palavras reconfortantes”, disse.
Maria das Graças não se surpreendeu apenas com as palavras de apoio. Segundo ela, a abordagem realizada pela Santa Casa impressionou também pelo grau de informações transmitidas. “As assistentes sociais explicaram, de forma bem realista, como a anatomia da almofada poderia me auxiliar e mostraram a importância do adereço como suporte para ombro e braço já que, antes eu tentava, sem sucesso, adaptar uma toalha enrolada ou um travesseiro, que não amenizavam o incomodo nem a dor”, conta.