Antonio Oswaldo Storel nasceu no dia 29 de janeiro de 1936, em Piracicaba (SP). Filho de Ernesto Storel e de Thereza Razer Storel, começou sua carreira como cirurgião-dentista, após se formar em 1958 pela Faculdade de Odontologia de Lins. Casado com a professora Marilene Storel e pai de três filhos — Júnior, Maryse e Anelyse –, Antonio Storel já ocupou vários cargos de importância na Câmara de Vereadores de Piracicaba e conhece o Legislativo como poucos.
Piracicabano cristão e respeitável, Storel recebeu o jornalista Rafael Fioravanti em sua casa, no bairro São Dimas. Ali, eles conversaram sobre vários assuntos, incluindo começo de carreira, direitos humanos, problemas enfrentados na Câmara e polêmicas com outros munícipes.

O senhor começou sua carreira como cirurgião-dentista. Como foram seus anos de profissão?
A minha profissão foi uma coisa que aconteceu não em decorrência de uma vocação, ela simplesmente apareceu. Eu fazia curso científico no Colégio Piracicabano à noite e trabalhava durante o dia. Aí, quando chegou próximo à época do vestibular, falaram no colégio que tinha uma faculdade metodista na cidade de Lins (SP) que estava oferecendo odontologia. Eu e mais três colegas nos preparamos e fomos até lá, fizemos o vestibular e passamos. Quando eu me formei, comecei a trabalhar e finalmente encontrei aquilo que eu mais gostava de fazer: trabalhar com criança. Então, sempre que chegava crianças na clínica, todo mundo falava “manda para o Storel”, porque ninguém gostava de atendê-las. Por conta disso, as crianças gostavam de ser atendidas por mim. Um dia eu estava trabalhando com uma menininha e chegou o meu professor: “olha, você está fazendo errado, não é assim que se faz!” Aí conforme ele foi se aproximando, a menina não deixou ele pôr a mão nela. Ela só queria eu. Trabalhei por 42 anos em consultório particular e, graças a Deus, me realizei como cirurgião-dentista. Hoje me sinto bastante feliz quando vou em um lugar e vejo pessoas de destaque falando que foram meus clientes quando crianças. Um tempo atrás, teve o Dia do Dentista na Câmara e eles decidiram homenagear o Doutor Renato Françoso, que foi meu cliente quando criança. Todos os irmãos dele estavam lá e todos também foram os meus clientes. Quando ele foi fazer o discurso dele de agradecimento, ele falou: “vou usar o nome do cirurgião-dentista Antonio Oswaldo Storel, o decano dos dentistas, para homenagear todos os dentistas de Piracicaba.” E daí eu comecei a ver que, de todos os homenageados, dois ou três haviam sido meus clientes quando criança.
Como foi a transição dessa fase de dentista para político?
A política é algo que a gente já tem dentro da nossa personalidade, do nosso perfil. Já na faculdade, gostava muito de me entrosar com a turma. Ajudei a criar a Associação Atlética Acadêmica, fui diretor do Centro Acadêmico, e fui escolhido para ser presidente da Comissão de Formatura numa turma de 79 dentistas. Uma dificuldade enorme, pois, na época, eu trabalhava e estudava. Dava aula de química e ciências no Colégio Salesiano para poder estudar. Trabalhava como revisor de jornal a noite toda, e estudava durante o dia. Minha vida foi muito cheia de dificuldade, mas, graças a Deus, sempre com muita alegria toquei o barco para frente.
Faça-me um breve resumo de suas passagens pela política.
De 1973 a 1977, fui secretário da Prefeitura na área de Educação, Saúde e Promoção Social. Fiz um trabalho muito bom, com plano de expansão das escolas, enfim, coisas que acabaram ficando na história e que serviram de modelo para todo o Estado de SP. Aí em 1982 (minha primeira candidatura), o pessoal achou que eu tinha que ser candidato a prefeito. Eu trabalhava em movimento da igreja e o pessoal achou que tinha que ter mais cristão envolvido com política, por isso acabei me candidatando a prefeito nesse ano. Foi uma loucura, porque eu não tinha maturidade política. Eu tinha experiência de vida, mas não maturidade política. De 1989 a 1992, fui convidado para ser secretário novamente. Em 1992, criei a Emdhap, fui primeiro presidente e aí, com o pessoal me incentivando, saiu novamente minha candidatura a prefeito junto com o Boaventura. Éramos nós dois contra o Thame. A gente não ganhou, mas acabou sendo uma experiência muito válida. Depois disso, comecei a acompanhar o Chico Whitaker, cristão de marca maior. Ele foi vereador em SP de 1988 a 1992, junto com a Erundina. Fazíamos reuniões e numa dessas vezes ele me falou: “a gente só consegue mudar a sociedade no Legislativo, e não no Executivo.” O Legislativo é o órgão que verdadeiramente representa a sociedade. Por isso, decidi me candidatar a vereador em 1996.
Quando o senhor se candidatou a vereador pela cidade, em 1996, adotou o lema “Compromisso e missão com a construção da cidadania”. O que esse lema reflete para o senhor atualmente?
Em 1996, a campanha da fraternidade dizia “Fraternidade e política, justiça e paz se abraçarão”. E aí, com aquela cabeça de cristão conscientizado, com experiência de vida pública no Executivo, aceitei e fui eleito com esse lema que é fruto da minha formação cristã. Compromisso e missão com a cidadania, ou seja, ajudar as pessoas a se empoderarem. Não se trata de eu ir lá e levar um poder, mas transferi-lo às mãos das pessoas. Fui eleito vereador e reeleito mais duas vezes. Eu sempre defendi que a missão do vereador não é para ficar lá permanente como profissão; sempre defendi que fosse apenas dois mandatos, com apenas uma reeleição. Mas ao fim do primeiro mandato, as pessoas me pressionaram tanto que acabei aceitando um terceiro mandato. Desta vez, fizemos um trabalho muito bonito no Fórum da Cidadania Justiça e Cultura de Paz. Esse fórum se reunia uma vez por mês na Câmara com um grande número de representantes, com pessoas de 28 cidades da região. Eu coordenava o Fórum e as pessoas não queriam me ver fora dele, fora da Câmara. Na época, eu falei: “eu já contrariei minha filosofia do segundo para o terceiro, agora não vou mais contrariar. Não se trata mais de uma questão de querer ou não, mas de uma questão de princípios.” O Legislativo, do jeito que está hoje em Brasília, está uma vergonha. Ele tem que ter rotatividade. Desta vez, conseguiram renovar 50%, mas ainda é pouco, os caciques ainda estão lá. Infelizmente, temos muita gente boa que não participa da política por falta de espaço. A política tornou-se reduto exclusivo de um grupo privilegiado. Isso é terrível. Então, a minha visão política me levou a deixar a Câmara. A política leva a gente a cometer algumas loucuras, mas eu também tive o bom senso de ir até onde eu achava que era correto. O aprendizado na negociação política é fundamental para se trabalhar limites. Não podemos ceder além dos nossos princípios. Nossos princípios têm uma certa elasticidade, porém os princípios cristãos são radicais — como a defesa da vida, a defesa da dignidade humana, etc.
E como o senhor se tornou chefe de gabinete do vereador Paulo Camolesi?
Nessa época, o pessoal falava: “mas você não quis mais ser vereador, então por que você vai virar assessor?” Bom, a resposta para isso é que eu posso ajudar os vereadores, porque fiquei 12 anos na Câmara e adquiri um conhecimento muito bom, profundo e extenso sobre as atividades do Legislativo. Eu participava de um grupo chamado “Cidadania”, e o Paulo Camolesi também fazia parte desse grupo. Depois que saí da Câmara, sempre discutíamos os problemas da cidade e fazíamos trabalhos com estudantes de Ensino Médio das escolas públicas. Fizemos trabalhos bons durante um ano todo, uma reunião por mês, sempre levando temas para discutir. Aí, nesse grupo, alguém sugeriu o Camolesi como vereador. Ele foi eleito em 2012 e o próprio grupo me sugeriu como assessor.
Nesses anos finais da vida de parlamentar, houve um certo mal-estar na Câmara. O senhor foi exonerado pelo então presidente João Manoel dos Santos, e, logo depois, o senhor publicou um desabafo dizendo que “houve um regime ditatorial” na Casa. O senhor poderia esclarecer o que houve aí?
Como assessor, eu discutia pautas com o Camolesi e cabia a ele ir lá para apresentá-las. Um dia, eu estava assistindo uma reunião da Câmara e chegou um projeto de resolução sobre o regimento do cerimonial da Câmara. Era um texto comprido e estava na pauta para ser votado. Eu dei uma lida, achei inúmeros erros nesse projeto, então chamei a Débora (assessora que trabalhava comigo), ela também leu e também achou muitos erros. Decidi ligar no Legislativo e dizer a eles que o projeto não podia ser votado naquele dia, porque estava cheio de erros. Como que a Câmara aprovará uma resolução cheia de erros? Inclusive, a resolução dizia que os mortos poderiam ser homenageados e que eles viriam pessoalmente receber a homenagem, enfim, coisas desse tipo, com muitos erros absurdos de português e de legislação. Como eu pedi para o diretor do Legislativo corrigir, ele tirou a resolução de pauta, e uma semana depois, o negócio voltou à pauta. Liguei novamente para ele e ele me disse que não deu tempo de corrigir. Perguntei se o projeto seria tirado de pauta, e eles me responderam que não, apenas o vereador poderia retirá-lo de pauta. Foi aí que decidimos fazer uma emenda e o projeto saiu automaticamente. Depois, nós ainda fizemos um projeto substitutivo com tudo corrigido. A emenda entrou, foi protocolada e quando o então presidente da Câmara — que era o João Manoel — foi ler a emenda de resolução, ele gritou para o Camolesi na sessão: “o senhor pode fazer emendas, vereador, mas o senhor vai ter troco político”. Eu particularmente não aguentei. Fui para o computador, escrevi um artigo para a Gazeta e aí eles publicaram esse meu artigo. Eu não disse que ele era um ditador, mas que a atitude foi ditatorial. Depois disso, o João Manoel falou um monte de mentiras ao meu respeito, inclusive que eu tinha demitido uma mulher grávida quando presidente, o que é a mais pura mentira. Eles tentaram me desqualificar. Aí o João Manoel acabou me exonerando.
E pode isso?
O presidente não pode exonerar um assessor indicado por um vereador. O presidente da Casa só pode fazer uma exoneração por meio de uma indicação do vereador. E como nós tínhamos um advogado que prestava assessoria para nós, ele nos disse que era só entrarmos com um mandado de segurança que ganhávamos. Fizemos isso e realmente ganhamos. Aí eles entraram com recurso no Tribunal Regional e o tribunal foi unânime em me dar retorno. Retornei ao trabalho e ainda recebi o atrasado, porém tudo isso me custou oito meses fora da Câmara. Foi um rolo! Aí, até fiz um pouco de onda quando retornei. Uma mulher havia acabado de voltar de Jerusalém, trouxe água benta do Rio Jordão e pediu para eu benzer a Câmara. Eu peguei o vidrinho e entrei benzendo a Casa. O jornal estava ali perto, viu a cena e acabou publicando. (risos)
E o João Manoel, como ficou?
Ele ficou com aquela mágoa. Um vereador faz uma emenda para melhorar um projeto, e não para modificá-lo. Era uma emenda corretiva, e não modificativa. E era uma incumbência do Departamento Legislativo fazer isso e não fez. Foi aí que eu decidi tomar atitude.
Como o senhor analisa o atual cenário político de Piracicaba?
Eu acho muito triste. Em 2016, eu publiquei um artigo no jornal, chamado “Distorções da Democracia”. Aí houve uma reação do prefeito Barjas Negri, porque, no artigo, eu esclarecia o que realmente tinha acontecido na eleição. O Barjas deixou o mandato de prefeito para o Gabriel e daí foi embora para a fundação de desenvolvimento escolar. Aí, todo final de semana ele estava aí e começou a fazer campanha de novo após quatro anos. Só que como o Ferrato também queria ser candidato, eles acabaram tendo um atrito e o Ferrato acabou se desfiliando do PSDB. E em 2016, o Barjas voltou como candidato como se fosse o dono do pedaço. Ele fez coligação com 12 partidos e com bastante dinheiro (porque saiu no santinho com um monte de vereadores). Resultado: desse grupo, ele colocou 21 vereadores lá dentro. Apenas dois não entraram nisso, que foi o Paulo Campos e o Trevisan. Aí o meu artigo fazia essa análise, dizendo que ele fez um arrastão eleitoral e não sobrou votos para nenhum outro candidato. E o Barjas ficou bravo. Ele mandou um artigo para a Coluna do Leitor do Jornal de Piracicaba e, há três anos, eu escrevia todas as quintas-feiras no mesmo jornal. Nessa coluna, o Barjas contou a fábula do sapo e do escorpião, onde o sapo ajuda o escorpião a atravessar o rio para não morrer afogado em troca do escorpião não picá-lo; e quando o sapo chega em terras firmes, o escorpião pica o sapo, acusando aquela reação de ser seu instinto natural. Nesse artigo, o Barjas me comparou ao escorpião, coisa que eu nunca entendi. O Barjas nunca fez nada para mim, então como “ele me transportava de um lado para o outro do rio?” E logo após ele publicar esse artigo no jornal, a Ude Valentini (editora do Jornal na época) me ligou, dizendo que estava fazendo uma remodelação no jornal e que meus artigos não seriam mais publicados.
O senhor tem um lado social muito forte e sempre esteve à frente de instituições. Eu quero saber o pensamento do senhor no que concerne a Direitos Humanos.
Direitos Humanos, tal qual a política, é muito mal conhecido pela população. A população não tem consciência daquilo que é realmente os Direitos Humanos. Eu fico muito irritado quando estou assistindo televisão e repórteres dizem: “onde está o pessoal dos Direitos Humanos que só defende bandidos?” Isso é uma falsidade muito grande, porque não é assim. Os Direitos Humanos são para todos os seres-humanos, seja rico, pobre, bandido, seja o que for. O direito nasce com a pessoa, não é adquirido depois que nasce. É natureza. Eu fui praticamente o responsável por terem fechado o CDP (Centro de Detenção Provisória) aqui em Piracicaba há algum tempo atrás. Eu fui lá fazer uma visita e o que vi era horrível. Os presos tomavam banho num lugar onde passava a água de esgoto. Isso não pode, o Estado é responsável por essas pessoas que ele privou da liberdade. Porém, eu também já fui atrás dos direitos dos cortadores de cana, que trabalhavam praticamente como escravos. Eu os via perdendo as unhas das mãos, porque o equipamento de proteção era totalmente inadequado. Sempre bati duro contra o pessoal de usina. Direitos Humanos são para todos.
Para finalizar, qual mensagem final o senhor gostaria de deixar ao povo Piracicabano?
Eu acho que há uma conscientização muito limitada sobre política, então a população é levada por notícias falsas, informações incorretas e pessoas inescrupulosas. Tudo isso por falta de informação política. Na verdade, as pessoas nem têm clareza sobre qual a função de cada cargo eletivo para poder escolher a pessoa que ocupará aquele cargo — por exemplo, quando você for eleger um síndico de prédio, você tem que saber quais são as funções de um síndico. Isso permitirá que você escolha a melhor pessoa. Agora, o povo não sabe o que um vereador faz nem o que um deputado faz, então fica difícil. A minha mensagem para a população é a seguinte: é fundamental criarmos um sistema organizado de conscientização política. A política é uma ciência, a ciência de construir o bem-comum. E se é uma ciência, deve ser estudada desde pequenininho. Isso não só é dever da família, do Estado, do governo, mas também da Igreja e das organizações. Todos devem batalhar por essa formação política no povo. Não se muda política se não mudar o ser-humano. O ser-humano tem uma cultura e se não mudarmos essa cultura nele, com certeza ele continuará elegendo essas pessoas eternamente. E para mudar isso, só através de conscientização. Eu termino com a frase do Papa Francisco: “o cristão não pode fazer como Pilatos e lavar as mãos diante da política, é um dever do cristão assumir a atividade, visto que a política é a forma mais eficaz da prática da caridade”. Enquanto a assistência acolhe um desvalido, uma lei acolhe milhões.
