Opinião: Começou a temporada de bisbilhotagem

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Ana Hickmann_foto edu moraes - 330x209Texto enviado por: Pedro Antônio
Piracicaba – SP.

Nada na vida é 100%. Isso é um fato imutável, com o qual, mais cedo ou mais tarde, teremos de nos conformar. Ter um filho é delicioso, mas temos as dores de parto, os gastos inesperados, as noites insones. Ficar rico deve ser excitante, mas na mesma hora já se impõe sobre nós o fardo de mantermos e aumentarmos essa riqueza, o medo de sermos prejudicados, nós ou nossos entes queridos, a consciência pesada de sempre termos de ajudar os menos afortunados, e assim por diante.
Por isso mesmo que me revolto, sadiamente, claro, quando algo bom ou ruim vira unanimidade. Invoco aqui a sabedoria de um dos meus muitos mestres, Nelson Rodrigues, o Anjo Pornográfico, quando disse, em alto e bom som, que “Toda Unanimidade é Burra”. E quando ele disse isso, nas entrelinhas quis dizer que todos os que se apegavam a esses conceitos unânimes também o são. Por mais que isso ofenda alguns, sou forçado a concordar com essa máxima. E vou provar que mais uma vez ele estava certo, recorrendo a um fenômeno local de audiência, amado e odiado quase que na mesma proporção: O Big Brother Brasil, ou, o BBB, veiculado pela Rede Globo de televisão, esse ano na sua décima terceira edição.
Quando digo fenômeno local, o faço, pois ao que me consta, nas navegações pela internet, é que esse modelo de programa realmente só “pegou” mesmo aqui no Brasil. Foi veiculado em muitos outros países, sim, mas não com uma aceitação nem com uma longevidade tal qual a versão Tupiniquim. Afinal, são treze anos de uma temporada de três meses ininterruptos. E estamos falando da maior rede de televisão do Brasil, senão da América Latina, a veiculá-la, o que, se não fosse vantajoso, com certeza não estaria acontecendo. E para quem disser que essa aceitação só ocorre exatamente pelo fato de ser na Rede Globo sua apresentação, mostra-se pouco informado, pois, quando este modelo de “reality show”, mesmo com algumas variantes, foi exibido pelo SBT (Casa dos Artistas) e pela BAND (A Fazenda), causou comoção similar, logicamente dentro dos parâmetros de abrangência das duas emissoras citadas.
Para alcançar isso e não cair na mesmice, a Rede Globo se esmera em sempre modificar, ano após ano, alguma coisa, mas sem perder a essência do programa, a saber, despertar nossa curiosidade de ver gente como nós confinada, e seus conflitos, existenciais e psicológicos. Para isso, apostam em atiçar o instinto humano de competição, ciúme, preguiça e língua afiada. E como nós nos vemos ali, tal qual espelho da realidade, a audiência só aumenta. Quando esses mesmos índices oscilam, eles dão uma leve “apimentada”, pra não dizer “apelada”, nos métodos, colocando tabus aos olhos de todos, como homossexuais se assumindo, um pouco de luxúria entre casais, nem sempre ‘debaixo dos edredons’ levantando assim, o faturamento, e a fúria de alguns grupos mais conservadores.
Fiz todo esse preâmbulo para DEFENDER… sim, defender a assistência ao programa. E explico o motivo da minha defesa. Porque não quero ser um “unânime burro”. Vamos aos fatos: Nas redes sociais, nas conversas de botequim, nos cafezinhos das empresas, é quase um sacrilégio dizer que assistimos BBB. Falar isso é assinar atestado de ignorância, de pouca instrução, de se deixar manipular pelo sistema e pela emissora que veicula o programa. É quase uma heresia. O bonito, a moda, o bem aceito, é dizer que odeia o programa, que ele é um desserviço ao crescimento educacional da população, e toda essa balela que todos conhecem. Bem, que realmente, BBB não vai acrescentar em nada na minha formação cultural, eu sei. Mas e se é isso que escolhi como entretenimento naquela hora da noite, pelos próximos três meses? Dizer que vou sofrer uma atrofia mental por isso também é exagero. Ou será que os grandes pensadores do mundo nunca se divertiam com nada que fosse intelectualmente “supérfluo”? O próprio Nelson Rodrigues que citei acima,era um aficionado por futebol, coisa que, convenhamos, não é nenhum tratado de boa educação e preparação para um futuro culto. Quem já esteve num estádio pode corroborar o que estou escrevendo aqui. Já Vinicius de Moraestinha como passatempo preferido ver belas moçoilas caminhando pelo calçadão carioca, e digam-me agora se isso também não é gostar de “dar uma espiadinha”, fazendo aqui uso do bordão principal do apresentador do BBB…
Mas há uma outra corrente, essa, mais branda; a dos que não criticam quem assiste, mas criticam quem vota, quem dá dinheiro para manter o programa por meio de suas ligações telefônicas. Eu também concordo que é um dinheiro desperdiçado. Mas quantos de nós não jogamos dinheiro fora em outras coisas? Em comprar o que não precisamos, em diversões que por fim nem curtimos, em comida que não comemos, em mulheres que não amamos (e que nos amam menos ainda), em deuses que somos levados a crer que nos abençoarão com prosperidade, caso nos despojemos de nosso dinheiro em prol deles. E se alguém nos criticar por isso, qual a resposta educada que salta das nossas bocas imediatamente? Sim, o dinheiro é meu, gasto como quiser. Nada mais que um jogo de azar, que você entra sabendo que vai perder. Essas votações não passam disso. E ninguém lá da televisão coage ninguém a votar. Prova disso é que de todos os que eu assisti (devo ter visto todos os 12, não de forma contínua, mas esporadicamente) não votei nunca pelo telefone. Já o fiz pelo site, onde nada me custou.
Ou seja, não é esse ou aquele programa que “emburrece” as pessoas. Isso é como colocar água suja e limpa num balde, alternando-as. Sempre haverá sujeira, mas nunca toda suja, assim como sempre haverá água limpa, mas nem toda cristalina. Agora, lembram-se da frase do início desse texto? Nada na vida é 100%. Não somos totalmente água suja, nem limpa. Vamos alternando. Por isso que mesmo quem é extremamente culto ou inteligente, tem seus momentos de “junkmind”, fazendo um trocadilho com a expressão americana para “comida sem valor nutritivo, ou junkfood”. Além do mais, acho muito interessante essas pessoas que execram programas puramente objetivados no entretenimento, sem um fundo cultural, ou social, ou ideológico, pois essas mesmas pessoas, quando questionadas sobre qual foi o último livro que leu, ou a última peça teatral que assistiu, ou mesmo na televisão, qual o último concerto que viram (exibem-se concertos na TV aberta, podem acreditar), essas mesmas não sabem dizer, na sua maioria. É a velha máxima de “tem telhado de vidro, mas adora jogar pedra no telhado dos outros”.
Sei que após lerem esse texto, muitos vão dizer que gosto de BBB. Gosto sim, da mesma forma que gostei de ler a Odisséia, de Homero. Não precisamos ter uma linha rígida de preferências predeterminadas. Como, por exemplo, gostarmos de MPB e desprezarmos todo outro tipo de música. Entendo que essa diversidade serve mais para nosso crescimento do que para nosso retrocesso intelectual. Tudo o que foi dito aqui é uma crítica totalmente desprovida de grandes intenções, a não ser a de nos fazer pensar que gosto é algo muito relativo e pessoal, e não gostar de algo não nos dá o direito de criticar quem gosta. BBB, dramalhões mexicanos, novelas melodramáticas, programas de auditório com direito a confusões ao vivo, sejam essas armadas ou não, além de humorísticos que beiram ao apelativo, noticiários sangrentos e sensacionalistas, todos esses tem seu espaço na mídia, não por acaso, mas porque têm sim um público fiel a todos esses segmentos. E o bom senso, e o livre arbítrio devem imperar nesse caso. Não gosta, desliga, muda, bloqueia, mas não critica quem gosta. E quem gosta, não perca a chance de, pela décima terceira vez “dar uma espiadinha”.

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