Coronel Adriana: “nosso maior problema é o tráfico e a cooptação dos jovens a isso”

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Adriana Cristina Sgrigneiro Nunes, mais conhecida como Coronel Adriana, nasceu em Piracicaba (SP), no dia 11 de outubro de 1967. Estudou nas escolas estaduais Alcides Zagatto, Olívia Bianco, Abigail de Azevedo Grilo e Sud Menucci. Começou a trabalhar em 1979, ainda aos onze anos, na Guarda Mirim de Piracicaba. Em seguida, ingressou na Usina Costa Pinto.

Em 1988, formou-se em primeiro lugar no curso de Formação de Soldados da Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP). Já em 1990, ingressou na Academia de Polícia Militar do Barro Branco, onde se formou Bacharel em Administração de Polícia Ostensiva. Graduou-se ainda bacharel em Direito pela Universidade Cidade de São Paulo, e mestre em Ciências Policiais e de Ordem Pública pela PMESP.

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Nesta entrevista concedida ao jornalista Rafael Fioravanti, do Jornal PIRANOT, Coronel Adriana fala um pouco sobre sua vida, sobre sua contribuição à política municipal, sobre o tráfico de drogas (que, segundo ela, é um dos maiores problemas que Piracicaba enfrenta atualmente) e tece comentários ao atual governo do prefeito Barjas Negri.

Coronel Adriana
Foto: Assessoria de Imprensa.

Como teve início a sua carreira militar?
Eu nasci numa família extremamente carente. Entrei para a Guarda Mirim em 1979, com onze anos, onde permaneci por quatro anos. Saí da Guardinha e daí passei por uma série de outros empregos; o último na Usina Costa Pinto, em Piracicaba. Em 1986, apareceu uma vaga para a Polícia Militar. Foi o primeiro concurso para a polícia feminina depois de muitos anos, período em que houve uma contratação de mais de 15 mil policiais. Prestei o concurso e acabei entrando justamente nessa leva de expansão da Polícia Militar. E quem me mostrou esse concurso foi minha mãe. Na época, eu nem sabia o que era a polícia, a única relação que eu tinha com esse lado é que tinha sido guardinha, aí aprendi ordem-unida, aprendi a marchar e ia desfilar no 07 de setembro, fora isso eu não tinha nenhum contato com a polícia, não havia policiais na minha família. Minha mãe me mostrou o concurso, eu o prestei no final de 1986 e aguardei quase um ano para ser chamada. Só fui chamada em agosto/setembro de 1987. Fiz o Curso de Formação de Soldado em 1987, na cidade de Campinas, e só o terminei alguns meses depois, em 1988. As duas piracicabanas, eu e a Nadja, fomos as duas primeiras colocadas do Curso de Formação de Soldados. Fizemos estágio por lá, e aí voltamos para Piracicaba onde trabalhamos no trânsito.

Eu gostaria que a senhora elucidasse como se deu a sua transição da polícia para a política?
Em 2012, eu assumi a coordenadoria operacional do Batalhão e, logo em seguida, já assumi o comando do batalhão também como major, visto que houve um problema aqui na cidade com o comandante e eu fui designada para substituí-lo. Aí acabei ficando um ano e meio no comando do Batalhão. E foi justamente nessa fase que apareceu uma proposta do prefeito Barjas Negri, tanto que a minha primeira candidatura, em 2012, foi pelo PSDB. Houve esse convite, e, num primeiro momento, eu não aceitei. Sempre foi falado que nós, militares, éramos apolíticos e por muitos anos nós nos convencemos disso. Mas ninguém pode ser apolítico. Depois de muitos anos na Polícia Comunitária, e já como comandante coordenadora operacional da unidade aqui, eu via que o município ainda podia fazer muito para a resolução de problemas de segurança pública. O crime se instala onde ele tem facilidade, em ambientes desagregados. Em razão disso, pelo conhecimento que tínhamos, víamos que o município ainda podia fazer muitas coisas. Há coisas que só quem é da área de segurança sabe, e aí, com esse conhecimento, você consegue falar: “essa legislação precisa mudar aqui, isso precisa mudar ali”.

Seria um olhar mais técnico, digamos?
Sim!

Como vereadora, qual projeto de sua autoria a senhora julga mais importante para Piracicaba?
O problema é que as normas que faço deveriam ser reguladas pela própria prefeitura; mas como falo, falta conhecimento técnico. E quem é que tem esse conhecimento? Quem está na área de gestão de segurança pública, porque o próprio gestor público municipal não enxerga esses problemas. E eu sempre estive na área de gestão de segurança pública. Antes, por exemplo, tínhamos uma lei municipal que proibia a compra de tampas de relógio do Semae. A lei era basicamente isso. Era proibido ao ferro-velho comprar tampas de relógio do Semae pois eles corriam o risco de ter o alvará cassado. Mas é só isso que a pessoa furta? Hoje um dos principais problemas estão relacionados ao furto de fio. O cara furta quilômetros de fio, acaba com a comunicação da cidade, acaba com a iluminação de um monte de lugar e nada acontece com o comerciante que compra esse fio. Quem é o culpado do furto? É o cara que compra! Então mudei essa lei e deixei nela não só o ferro-velho, mas incluí também todas as grandes empresas que recebem sucata. Se for constatada a presença de materiais e produtos ilícitos, elas também poderão ter o alvará de funcionamento cassado. Outro exemplo: nessa mesma lei, eu também inseri pessoas que instalam e vendem som automotivo. Sabe aquelas paredes de som? Elas se alimentam de baterias estacionárias, e essa bateria vem do furto de antena. Então inserimos todo esse povo aí, que acaba atuando como receptador. Hoje, infelizmente, o furto é um crime de menor potencial ofensivo. Então já que não conseguimos fazer nada com o cara que furta, temos que fazer com o cara que recebe. A lei já existia, mas falava apenas de relógio do Semae. Então, fizemos com que essa lei se adequasse mais à realidade. Isso também é uma das coisas que me motivou a vir para a política. Tem também outras questões, como a do flanelinha, na qual ainda estou trabalhando. E hoje eu estava conversando também sobre a questão daqueles vigilantes de moto.

A Câmara de Vereadores de Piracicaba é uma casa formada majoritariamente por homens. A senhora sente alguma dificuldade em relação a isso?
Eu nunca tive dificuldade nenhuma em trabalhar com homens. Não sou “mimizenta”, não me faço de vítima, eu vou e faço a minha hora, é simples assim. Todo ser-humano é assim. Se ficarmos de choradeira, uns passarão a mão na sua cabeça e te tratarão como coitadinho, enquanto outros vão pisar em você. Isso vai muito de postura. Eu sempre trabalhei com homens a minha vida toda em batalhões enormes. O 10º Batalhão, por exemplo, tinha quase 600 pessoas, a maioria homens. Você tem que ter conhecimento, capacidade de se expôr e de tocar os seus projetos. Independente de ter alguém que me mandasse, eu ia e fazia. Até hoje sou assim.

Como a senhora enxerga a questão da violência no município? E o que, na sua concepção, deveria ser feito para amenizar esse clima de insegurança?
Piracicaba vive uma situação bastante privilegiada em termos de números. O nosso maior problema aqui é o tráfico de drogas e a cooptação dos nossos jovens a isso. As ações são muito insipientes. Eu gostaria que houvesse ações mais firmes não na repressão (porque o município prende três ou quatro pessoas todos os dias), mas no mercado consumidor que não pára de crescer. A grande pergunta que todo gestor público tem que responder é a seguinte: “é isso que eu quero para a minha cidade?” A molecada acaba entrando no tráfico pelo endeusamento que existe. O traficante é poderoso, é o traficante que sai com as menininhas mais bonitinhas, enfim, daí o menininho acaba entrando no tráfico para sair com a menininha. Isso acontece porque, mundo afora, existem N pessoas que se dão bem e são ligadas ao consumo e tráfico de drogas, como artistas, jogadores, políticos, etc. O jovem pensa: “ele usa e está tudo bem, ele está por cima da carne seca”. E isso não é verdade. As pessoas não podem achar que isso não tem consequência, porque tanto o tráfico quanto o uso são crimes — quanto ao uso, você só não vai para a cadeia, mas ainda assim há medidas que são penas. As pessoas não entendem isso. O número de usuários é uma coisa que aumenta demais. Não há como fazer um processo de repressão se não houver, na cadeia produtiva, a prisão do grande e, na cadeia consumidora, um trabalho sério de deixar claro que a cidade não aceita isso. Droga destrói família, droga acaba com o rendimento nas empresas, droga leva a pequenos crimes e os pequenos crimes levam aos grandes, e assim consequentemente. Precisa haver algo claro quanto a esse respeito, porque esse é o nosso principal problema e acaba levando a uma série de outros problemas que geram insegurança nas pessoas. Precisa também haver fiscalização para que as pessoas saibam que elas não podem fazer tudo que elas querem. As pessoas têm que saber que existem leis que regram comportamentos e posturas aqui no município. Só isso já aumentaria a sensação de segurança com a presença do Estado.

Como a senhora tomou conhecimento da pauta da Apeoesp em relação ao fim do Proerd?
Pela internet. Foi uma gritaria geral. Caiu no meu WhatsApp: “olha só o que a Apeoesp está pedindo!” Não existe nenhum outro programa institucional de prevenção às drogas. Aqui em Piracicaba, o guarda-civil Narzi faz um programa de prevenção; mas no município não é toda a Guarda-Civil que faz isso. Já o Proerd é institucionalizado, todas as Polícias Militares do país o fazem. O custo é baixíssimo. E como não existe nada, a única coisa que existe não deve ser uma pauta de desconstrução. Nós não podemos achar que as drogas não fazem mal, não podemos achar que o uso abusivo delas não prejudica a sociedade como um todo. Eu considero que isso não é um tipo de pauta que uma instituição deva levar.

E o que eles alegaram na época?
Não alegaram nada, tanto que depois eles tiraram a pauta. Mas só a tiraram depois que houve aquela gritaria geral. A Polícia Militar se pronunciou, vários políticos se pronunciaram, várias pessoas falaram a respeito disso. Alguém (algum espírito) resolveu colocar essa pauta lá por um descuido, porque se tem um profissional que sofre na pele o problema do uso abusivo das drogas, é o professor. Todos os problemas acarretados pelas drogas vão parar lá na sala de aula do professor que tem 30 ou 40 alunos, tendo que olhar para essas situações de maneira particular. Nunca passou pela nossa cabeça que uma instituição poderia pautar um negócio desse.

Seria alegação de militarismo?
Eles podem até alegar militarismo, mas a verdade tem que ser dita: o problema não é militarismo, o problema é que não tem quem faça. Qual outra instituição poderia fazer um negócio desse? Sabe porque a cidade de Los Angeles escolheu a Polícia Militar de lá para fazer isso? Pela credibilidade da instituição. E trata-se de um contrato, é um know-how que é reconhecido às Polícias Militares de forma contratual. A forma de aplicação não pode ser mudada. Não é algo do tipo “ah, eu inventei da minha cabeça”. Isso é uma coisa que dá certo lá, que foi trazido para cá e que anda dando certo por aqui. É um trabalho desenvolvido por quem há credibilidade para entrar na sala de aula. Quem mais teria a credibilidade de entrar numa sala e fazer isso? Outra questão a ser levantada é que o Proerd não fala sobre drogas. O Proerd fala de atitudes, até porque as drogas permeiam por aí e estão praticamente presentes em todos os lugares. O Proerd fala de atitude e ensina as crianças a falarem “não às drogas”. Hoje toda criança quer pertencer a um grupo, a um coletivo. E se esse coletivo não é tão positivo e tem as drogas como fio norteador, a criançada entra pela pressão que o grupo exerce sobre ela. Então, é justamente sobre isso que o Proerd trata. Não se fala de drogas, mas de atitudes positivas.

Se tivéssemos que mencionar uma pessoa que a inspirou, que a influenciou, que moldou seu caráter e sua personalidade, quem seria essa pessoa?
Que me ensinou o valor do trabalho foi a minha mãe. Minha mãe nunca chegou para mim e falou: “você tem que ser doutora!” Mas ela sempre chegou para mim e disse: “você tem que trabalhar!” E o estudo é o trabalho do estudante. Se você não estudar, você não chega a lugar nenhum. Hoje a criançada, infelizmente, perdeu muito disso. Perdeu-se a noção do valor do trabalho, por isso as empresas andam tendo dificuldades até para contratar. E eu tive também um professor na Academia que chamava-se Coronel Terra. Tem uma coisa que esse coronel falou para mim uma vez e que me influencia até hoje: “o riso é constante no rosto do ignorante”. Mesmo com toda a pobreza, o povo está feliz, sempre rindo, “Brasil, o país mais feliz do mundo”. E a ignorância, neste caso, não é de forma pejorativa. A ignorância, aqui, é de realmente não saber das coisas. O povo não sabe das coisas, aí você vai lá e dá carnaval e futebol, todo mundo fica feliz. Agora parece que as coisas estão mudando um pouco com essa eleição aí, mas olha só o quanto demorou! Esse meu professor já faleceu, mas era uma sumidade em Ciências Sociais lá na Academia. Ele era um alemão enorme. O militarismo desenvolve muito as pessoas. [Os militares] têm um conhecimento muito extenso e são pessoas que deveriam ser mais aproveitadas!

Eu gostaria que a senhora desse uma nota ao atual governo Barjas Negri, e me explicasse o porquê desta nota.
Seria nota 7. Eu não posso dar uma nota maior que isso, mas menos também eu não posso dar. Hoje, como legisladora, eu sei dos problemas que o município tem com repasses e outras coisas. Quando você tem dinheiro, a sua boa ou má gestão não aparece, porque o dinheiro cobre falhas. É só na dificuldade que você se mostra um bom gestor. É só na dificuldade que você vai buscar novos elementos para a sua administração. É só na dificuldade que você começa a controlar os gastos. Se eu só posso gastar 15% em uma área e estou gastando 30%, é porque alguma coisa está errada. Como é que se melhora uma gestão? Buscando novas formas de gerir determinados tipos de serviço. Hoje, pelo município, nós encontramos várias falhas de gestão. Mas o que tem que ser dito é que o município sempre teve dinheiro, e agora não tem. E o Barjas está sendo contestado por essas falhas de gestão.

Para finalizar, qual recado a senhora gostaria de passar aos leitores do PIRANOT que leem esta entrevista?
Eu acho que cada um tem que fazer a sua parte. As pessoas têm que entender que coisa pública é de todos. Por mais que você tenha contrariedade em relação à gestão pública, se você não colaborar com ela, você será prejudicado por ela. Simples. Se você não participar da política, alguém participará. Por isso também que eu vim pra cá, porque se eu não viesse, outro viria. Nós temos que correr atrás daquilo que queremos, as coisas não caem do céu. Se durante 30 anos tivemos um grupo de gestores que dizia que “o Estado dá”, todo mundo já viu que isso não é verdade. O Estado não dá nada para ninguém. Se esse grupo de gestores dizia também que “tirou 30 milhões de pessoas da pobreza”, temos que ter em mente que isso é mentira, não tirou ninguém. Ninguém saiu da pobreza, pelo contrário: você deixar alguém comprar uma televisão e uma geladeira não significa que você tirou essa pessoa da pobreza. Sair da pobreza é a pessoa aprender a andar com as suas próprias pernas, tendo um emprego digno que pague o suficiente para que ela se sustente. Isso é tirar da pobreza. Sub-empregos ou empregos que somem na primeira crise não dá certo. Nós temos que colaborar e temos que aprender que dinheiro público é caro e custa quase meio ano do nosso trabalho. Se nós não nos dispusermos, ninguém vai dar nada em nossa boca. Um município e um país ordenado, anda melhor. Progride mais. Nada sai direito na bagunça.

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