Nancy Thame: “não sou vereadora apenas por ser, quero entrar de corpo e alma”

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Nancy Aparecida Ferruzi Thame, de 59 anos, é Engenheira Agrônoma graduada pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP), bacharel em Direito pela Instituição Toledo de Ensino de Presidente Prudente, e claro, vereadora da Câmara de Piracicaba.

Foto: Wagner Romano/PIRANOT

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Nascida em Lucélia (SP), município a pouco mais de cinco horas daqui de Piracicaba, Nancy é casada com Mendes Thame e mãe de três filhos. Com muita serenidade e lucidez, a parlamentar recebeu a equipe do Jornal PIRANOT em seu gabinete para tecer impressões acerca de suas raízes, acerca das questões femininas que tanto norteiam seus trabalhos na Câmara, e aproveitou também para dizer à nossa equipe o porquê considera Barjas Negri um prefeito dedicado. Este é o segundo volume de entrevistas que o jornalista Rafael Fioravanti, do PIRANOT, realiza aos domingos.

A senhora é natural de Lucélia. Como se deu essa sua vinda à cidade de Piracicaba?
Eu nasci em Lucélia, pequena cidade paulista na região de Marília, 100km para cá de Mato Grosso, e saí de lá ainda bem cedo, acho que tinha uns 14 ou 15 anos. Naquela época, era natural que os meninos saíssem para procurar escolas melhores, porém poucas meninas saíam. Meus pais me deram a opção de cursar um colégio em Campinas — na época, piano — então fui estudar num pensionato, numa época em que não se tinha internet. E para se usar o telefone e entrar em contato com os pais (isso uma vez por semana), se faziam filas enormes na Telesp. E esse caminho para Lucélia nós fazíamos de trêm, só depois que apareceram os ônibus. Certa vez, um ônibus em que eu estava passou na frente da ESALQ (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), e eu me apaixonei pelo lugar. Aí decidi vir para cá fazer ESALQ. Então tive um tempo de faculdade, morei um tempo aqui e em vários outros lugares, mas acabei voltando a Piracicaba no final de 1996, que foi quando me casei com o Thame. Nessa altura, eu já tinha uma vida profissional construída em Presidente Prudente.

Se nós tivéssemos que escolher uma personalidade que a influenciou, tanto em pensamento quanto em caráter, quem seria essa pessoa?
São tantas pessoas! Eu acho que nós temos os professores de escola, que muito nos influenciam e levamos como referência. Temos familiares (a questão agrícola e da agricultura, que está bastante ligada a uma história de família), e também acaba nos influenciado bastante. Como eu trabalhei muito em universidades e fui diretora de cursos, percebi que, além do lado técnico e acadêmico, conseguia fazer com que a gestão fosse melhor se eu olhasse a uma questão política, tanto com os alunos e professores, quanto com os reitores e com toda a comunidade. Nessa época em que estava na universidade, o meu contato foi muito forte com agricultores. Então fazíamos dia de campo com vários agricultores pequenos, a fim de dar a eles novas oportunidades agrícolas, e, com isso, trazer as instituições da região. Também trabalhei com Meio-Ambiente na Prefeitura de Presidente Prudente, onde ali os colegas também me influenciaram bastante. Enfim, são muitas pessoas! Vale ressaltar que também sempre tive uma paixão muito grande por capacitações, por conhecimento, por escola e por diálogos… o Thame também sempre me influenciou, porque o tenho como referência na questão ética e política. Agora, quando o assunto é mulher, uma personalidade que admiro muito é a Angela Merkel. Para mim, ela é referência por ser firme e forte. Por exemplo, na questão dos refugiados, ela foi a primeira chefe de Estado a dizer que eles precisavam ser abraçados e acolhidos; uma visão contrária à maioria dos colegas dela. Então, naquele momento, além de exercer o cargo político, veio também nela com muita força o lado mulher de se fazer as coisas. E outra mulher que eu não posso deixar de mencionar é a Ruth Cardoso. Eu acho que, em outros tempos, ela teria sido a presidente e, talvez, o Fernando Henrique teria sido o primeiro-damo. A Ruth fez um trabalho excepcional.

E por que a senhora decidiu entrar na vida pública?
Em toda a minha trajetória, sempre gostei do trabalho dentro de instituições públicas. Meu primeiro emprego foi no Ministério da Agricultura, aí trabalhei em Prefeitura, em universidades, e minha ideia não era ter um cargo eletivo… porém, fiquei quase uma década trabalhando com essa fundação alemã ligada ao governo do partido da Angela Merkel para treinamento e capacitação dentro da política. Então, de certa forma, sempre atuei muito dentro dos bastidores. Nessa última eleição, por exemplo, lidamos sempre com essa reclamação de incluir mais mulheres [na política]. Aí como eu estava aqui na cidade em véspera de convenção, acabei me deparando com uma Câmara com pouquíssimas mulheres. Aí pleiteei a vaga na convenção. Foram só 45 dias de campanha, mas nós tínhamos uma mensagem a passar, nós tínhamos ligações, eu sabia onde eu estava entrando, sabia quais eram os eixos para trabalho e isso me ajudou bastante para estar aqui. E eu gosto muito de estar aqui.

Aproveitando essa deixa, a Câmara de Vereadores de Piracicaba é formada majoritariamente por homens — são pouquíssimas mulheres atualmente na Casa. A senhora sente alguma dificuldade em relação a isso?
Muita! Te respondo rapidamente: tenho muita dificuldade! Eu acho que não é possível termos uma foto nas ruas e outra foto nos lugares que decidem, porque não somos iguais. Eu com minha idade, você com a sua idade, eu com a minha origem e você com a sua, faço a pergunta: o que é uma democracia representativa? Enquanto estivermos nesse sistema, teríamos que ter dentro da Casa e dos poderes as vozes que nos representam. Nós [mulheres] somos quase 52% da população e temos aqui uma Câmara quase sem mulheres. No Brasil, somos apenas 12% de vereadoras. Se falamos, por exemplo, em afro-descendentes, quantos afro-descendentes temos aqui dentro da Câmara de Piracicaba e quantos afro-descendentes temos aí pelas ruas? Quando estamos aqui, nós podemos até ajudar o diferente a ter uma voz, mas a verdade é que nós não falamos por ele. E a mulher, dado seu contexto social, cultural e histórico, tem outra percepção do dia-a-dia. Então sinto bastante dificuldade, porque entro para jogar um jogo criado totalmente pelos homens. Não adianta eu falar que quero jogar esse jogo de um jeito feminino, porque não existe esse jogo feminino aqui dentro. Nós [mulheres] temos que jogar um jogo que não ajudamos a construir e ainda temos que abrir espaço nele. Então, acho que nossa função aqui é fazer com que, na próxima, tenhamos mais representantes femininas aqui dentro.

Atualmente, muito se fala de feminismo e empoderamento feminino. A linha entre uma “vertente” e outra pode até ser tênue, mas uma coisa é diferente da outra. O que a senhora pensa a respeito dessas duas “vertentes”?
Acho que as coisas estão bem ligadas. Eu acho que todos nós deveríamos ser feministas, pois todos temos que ter direitos iguais. Nós sabemos que somos todos diferentes, mas os direitos têm que ser iguais. Isso confunde muito, porque machismo seria um mundo para os homens, enquanto que o feminismo seria um mundo para as mulheres. Feminismo é lutarmos pelos mesmos direitos. Não se trata mais de um jogo de competência, não podemos mais falar disso. Existe uma distorção histórica a ser corrigida em relação a muitas coisas, mas, principalmente, em relação às mulheres. Algumas mulheres só começaram a votar em 1932; já o voto se tornou normal para as mulheres apenas em 1946. Quem disse que uma menina andando na rua, quando passa perto de uma obra, quer ouvir todas essas besteiras que os homens falam? E às vezes temos até que mudar de calçada! Quem disse que as mulheres querem ser atacadas? Quem disse que a mulher sofre um estupro apenas por causa da roupa que ela estava? Errado é quem ataca, e não quem é atacado. Então, precisamos fazer uma reconstrução, porque tanto os homens quanto as mulheres sofrem. Eu tive tanto filho quanto filha, e posso dizer que os dois choraram igual quando nasceram. Os dois precisaram de mim igual. Eu amamentei os dois igual. Nós temos diferenças, mas não são essas diferenças que estão em jogo… são outras. Então, restringimos profissões; restringimos o direito de ir e vir; restringimos horários; cobra-se que a mulher vá bem na profissão, mas que também dê conta da casa e do filho. Nós temos que saber que o mundo é feito para os dois.

Na semana passada, a senhora questionou o Executivo a respeito de R$ 133 mil reais que seria destinado à Casa das Mulheres. A senhora já recebeu algum parecer a respeito disso?
O Executivo ainda tem 15 dias para responder oficialmente. Quando veio o PPA (Plano Plurianual) ano passado, nós tínhamos várias reivindicações que não estavam sendo atendidas e fizemos várias movimentações na cidade. Apresentamos também as nossas demandas. Eu pautei muito meu mandato na questão ambiental, na questão do empoderamento feminino e também na questão dos pequenos agricultores. Quando a gente entrou no PPA, era impossível que entrássemos com 20 emendas, então focamos em três que tivessem brilho para puxar as outras. E uma delas foi a Casa Abrigo. A gente sentiu a demanda coletiva nas reuniões, então eu, Nancy, fui somente uma representante dessa demanda. Aí quando protocolamos essa emenda, a Casa votou contrário. No fim, a pressão das mulheres foi tão grande que o Executivo resolveu acolher. Casa de acolhimento é complicado? Claro que é! O judiciário já interveio, a família já tentou acolher, os vizinhos também já tentaram acolher, aí falam: “pô, mas a mulher vai morrer…” Ela só vai morrer se a deixarem onde está. O processo demorou e foi contratado com diárias em Sorocaba a partir de setembro, mas só foi colocado R$ 200 mil. Então, como só foi atendido setembro, outubro, novembro e dezembro, R$ 133 mil reais — que estavam na Lei Orçamentária de 2017 — não foram utilizados. Ficamos preocupados no sentido de “poxa, R$ 200 mil já era pouco, então por que não pega esses R$ 133 mil e usa em prol das mulheres? Ou então aumenta o valor desse ano, porque, na verdade, esse valor está sendo devolvido para o caixa.” Então, esse questionamento não foi feito numa questão de desconfiança. Na verdade, essa rubrica já era para as mulheres, já era para essa causa, e nós estamos tentando fazer com que o valor destinado à causa realmente chegue a ela.

Como a senhora analisa atualmente o governo Barjas Negri?
Eu acho que o momento é difícil para todos os prefeitos. Não só Piracicaba, mas todos os municípios de médio e grande porte cresceram num ritmo acelerado e temos, por exemplo, alguns planos — como o “Minha Casa Minha Vida” — que não obedecem o próprio estatuto da cidade. Então, o município foi crescendo e colocando os mais necessitados sempre lá nas pontas da cidade, nas periferias. Aí nem sempre tivemos os serviços a contento. Não adianta você apenas dar um teto para o necessitado, você precisa dar a ele creche, escola e mobilidade. Então eu acho que ele pega essa administração num contexto de dificuldade do país inteiro. Mas [o Barjas] é uma pessoa operosa, trabalhadora e entende bastante da parte econômica, não temos dúvida alguma disso. A gestão passa muito pelas questões ambientais, que envolve reagrupamento, nova ordem das coisas, questões inclusivas, enfim, a questão mais espiritualizada do mandato. Nós temos aqui na Casa, por exemplo, a Escola do Legislativo. A escola tem sido um sucesso, porque as pessoas querem vir aqui para conversar, para falar de diversos assuntos, para fortalecer a cidadania, mas será que elas realmente têm esse espaço? Ninguém quer mais administradores que resolvem tudo, as pessoas querem decidir junto. O Barjas é muito dedicado à cidade, a gente vê que ele tem um amor grande por esse lugar, mas já houve outras administrações dele que foram diferentes desta, porque, nesta, especificamente, estamos num contexto de muita limitação financeira. Embora eu veja que o esforço é grande, o momento exige sensibilidade.

Para finalizar, qual mensagem a senhora gostaria de passar aos leitores?
A mensagem é no sentido de ouvir, de trazer para perto pessoas dos mais diversos segmentos e vozes. Nosso mandato tem sido bastante pautado nessa abertura. Eu estou aqui numa fase da vida que senti que poderia me dedicar realmente. Eu não quero ser vereadora apenas por ser, eu quero entrar de corpo e alma e me dedicar ao cargo num momento de tanta indignação do país. Será que eu não posso fazer um pouco mais? Tudo bem que é pouco, mas se todo mundo fizer o pouco que está ao seu alcance, talvez não tenhamos mais histórias queimadas em museus ou pensamentos de que resolveremos tudo isso na bala. Não estamos mais nessa época. Estamos na época de nos cuidarmos, e precisamos entender que um tem que cuidar do outro nessa transformação. Está aí um mundo novo vindo nesse sentido. Quero que as pessoas de Piracicaba contem comigo no meu máximo.

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