domingo, março 15
PUBLICIDADE

Uma parceria entre engenheiros do Centro Universitário FEI e pediatras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desenvolveu uma ferramenta inédita de inteligência artificial capaz de identificar níveis de dor em recém-nascidos internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Publicada na revista <i>Pediatric Research</i> com financiamento da FAPESP, a tecnologia utiliza modelos multimodais de linguagem e visão — similares aos que equipam plataformas como ChatGPT e Gemini — para interpretar expressões faciais de bebês com maior precisão e menos subjetividade que os métodos tradicionais.

O desafio invisível da dor neonatal

A avaliação da dor em recém-nascidos representa um dos maiores desafios da medicina neonatal. Como os bebês ainda não possuem capacidade verbal de comunicação, a identificação do desconforto depende exclusivamente da observação clínica, tornando o processo altamente subjetivo. "Um médico, um enfermeiro ou uma mãe mais angustiada podem ter percepções diferentes diante do mesmo paciente", explica Ruth Guinsburg, professora de pediatria neonatal da Unifesp e coordenadora-geral da UTI Neonatal do Hospital São Paulo. Até os anos 1990, a comunidade médica acreditava que recém-nascidos não sentiam dor por serem neurologicamente imaturos. Hoje, sabe-se o oposto: justamente por estarem em desenvolvimento, esses pacientes são <strong>mais vulneráveis</strong> aos efeitos adversos de estímulos dolorosos, podendo desenvolver sequelas duradouras quando o sofrimento não é adequadamente gerenciado.

Tecnologia multimodal supera limitações do passado

Diferentemente dos sistemas clássicos de <i>machine learning</i>, que exigiam extensos bancos de dados específicos e complexo pré-processamento de imagens para cada nova tarefa, a nova ferramenta integra processamento de linguagem natural e análise visual em um único modelo. "Com a chegada dos modelos de linguagem multimodais, tornou-se possível utilizar algoritmos pré-treinados em imensidões de dados da internet para resolver tarefas médicas específicas com maior rapidez", destaca Carlos Eduardo Thomaz, professor da FEI. Os testes demonstraram que o sistema supera técnicas tradicionais de <i>deep learning</i> na distinção entre estados de dor e conforto, além de não necessitar treinamento separado para cada tipo de procedimento, ampliando significativamente sua aplicabilidade prática em ambientes clínicos.

O equilíbrio entre alívio e proteção cerebral

A relevância da ferramenta torna-se ainda mais evidente quando se considera que um bebê em UTI neonatal pode ser submetido a até <strong>13 procedimentos dolorosos por dia</strong>, incluindo punções, inserção de cateteres, cirurgias e intubações. Embora essas intervenções sejam vitais para a sobrevivência, causam dor aguda que, se mal administrada, compromete o desenvolvimento neurológico. No entanto, o excesso de analgésicos também apresenta riscos. "No cérebro em desenvolvimento, tanto a dor não tratada quanto o excesso de medicação podem ser neurotóxicos. O desafio é acertar o alvo: tratar quando há dor e suspender quando ela cessa", alerta Guinsburg. Nesse contexto, a inteligência artificial funciona como um "fiel da balança", transformando sinais subjetivos em parâmetros objetivos que auxiliam a equipe médica a tomar decisões mais seguras e individualizadas.

Monitoramento contínuo e dimensão humana da inovação

Os pesquisadores vislumbram um futuro em que a tecnologia operará como um monitor de dor em tempo real, integrado aos equipamentos cardíacos e respiratórios já existentes nas incubadoras, emitindo alertas instantâneos sempre que o sistema detectar sinais de desconforto. Além de otimizar o uso de analgésicos, essa evolução permitiria intervenções mais rápidas e menos traumáticas. Para Lucas Pereira Carlini, engenheiro integrante da equipe da FEI, o impacto da inovação transcende os números de precisão alcançados nos laboratórios. "Buscamos sempre mais acurácia, mas é importante lembrar: o que cada ponto percentual de acerto representa para um bebê?", reflete, destacando que por trás dos algoritmos estão vidas recém-iniciadas que dependem da sensibilidade humana apoiada pela tecnologia.

A convergência entre engenharia e medicina neonatal aponta para uma nova era nos cuidados intensivos pediátricos, onde a subjetividade dá lugar a critérios objetivos sem perder a humanização do atendimento. Ao garantir que o sofrimento seja reconhecido e tratado com precisão cirúrgica, a ferramenta representa mais um passo na proteção do desenvolvimento neurológico daqueles que ainda não podem verbalizar sua dor, mas que sentem cada estímulo com intensidade máxima.

Fonte: https://www.agenciasp.sp.gov.br

Share.

Comments are closed.

Sair da versão mobile