domingo, março 15
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Em celebração ao Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, as atletas da seleção brasileira de judô Rafaela Silva e Jéssica Pereira participaram de um debate sobre equidade de gênero e desenvolvimento social realizado no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na última quinta-feira (12). Mediada por Camila Dantas, gerente de comunicação da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), a conversa abordou as trajetórias das esportistas, os desafios de manter uma carreira de alto rendimento e os preconceitos sociais e de gênero superados ao longo dos anos.

Origens humildes e o judô como porta de entrada

Aos 33 anos, Rafaela Silva descobriu o judô aos 5 anos de idade através de um projeto social na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. Inicialmente matriculada nas aulas de futebol, onde se sentia deslocada por ser a única menina do grupo, encontrou no tatame um ambiente acolhedor onde crianças de diferentes gêneros podiam treinar juntas. Já Jéssica Pereira, 31 anos e tricampeã pan-americana, teve seu primeiro contato com a modalidade aos 7 anos na Ilha do Governador, próximo ao Morro do Dendê. Foi sua mãe quem a matriculou, junto com outros cinco irmãos, buscando uma alternativa para mantê-los longe da violência durante o dia.

A luta contra o preconceito e as barreiras invisíveis

Apesar do talento precoce, ambas enfrentaram resistência por escolherem um esporte tradicionalmente associado ao público masculino. Rafaela recorda que, quando ingressou na seleção brasileira em 2008, os treinamentos no Japão — berço do judô — eram exclusivos para homens, já que a confederação não acreditava que as mulheres possuíam nível técnico suficiente para praticar no país de origem da modalidade. A atleta também relata ouvir de parentes que o esporte era "negócio de homem", com comentários desestimulantes sobre "ficar se agarrando e se batendo". Com o tempo e as conquistas, essa percepção foi sendo modificada tanto dentro de casa quanto no cenário internacional.

"O judô feminino é igual ao masculino. A gente luta o mesmo tempo, recebe a mesma premiação e tem as mesmas oportunidades, mas as pessoas ainda mantêm essa visão distorcida", observou Rafaela durante o evento, destacando a necessidade de continuidade na quebra de estereótipos.

Conquistas que reescreveram a história do esporte nacional

O judô representa o esporte mais vitorioso do Brasil em Olimpíadas, com 28 medalhas no total, sendo cinco de ouro — três conquistadas por mulheres. Sarah Menezes abriu esse ciclo em Londres 2012, seguida por Rafaela Silva no Rio 2016 e Beatriz Souza em Paris 2024. Outro marco importante veio de Mayra Aguiar, que se tornou a maior medalhista brasileira da modalidade com três bronzes olímpicos (Londres 2012 e Tóquio 2020) e a primeira mulher do país a conquistar três pódios em competições individuais — feito que hoje divide com a ginasta Rebeca Andrade.

Mudanças estruturais no cenário global

A Federação Internacional de Judô tem impulsionado a profissionalização feminina através de mudanças regulatórias. Desde o Campeonato Mundial de 2017, a competição por equipes passou a ser mista, combinando atletas masculinos das categorias 73 kg, 90 kg e +90 kg com mulheres dos 57 kg, 70 kg e +70 kg. Essa alteração obrigou nações com forte tradição na modalidade, como Geórgia, Azerbaijão e Uzbequistão, a investirem na formação de atletas mulheres para manterem-se competitivos.

Inspiração que transcende gerações

Para Jéssica Pereira, heptacampeã brasileira, a maior recompensa vai além das medalhas. "Quando recebo mensagens no Instagram dizendo que sou inspiração, ou quando uma criança conta que entrou no judô porque me viu lutar, esses momentos são muito gratificantes", afirmou a atleta, reconhecendo o papel de modelo para a nova geração. Rafaela Silva reforça essa percepção: "Quando comecei a fazer esses eventos, percebi que não podia parar, porque através da minha história e das minhas conquistas estou inspirando outras gerações".

Com os olhos voltados para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028, Rafaela já nota o aumento da participação feminina nas competições internacionais. Aos 33 anos, a campeã olímpica descarta a aposentadoria imediata e mantém o foco nos treinamentos, demonstrando que o legado das judocas brasileiras continua em construção, tanto nos tatames quanto na transformação social.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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