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segunda-feira, abril 20
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Dr. Sérgio Pacheco
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Dr. Sérgio Pacheco

Vice-prefeito de Piracicaba e médico cardiologista formado pela PUC-Campinas. Foi secretário municipal de Saúde e acumula mais de 20 anos de experiência em hospitais da região. Escreve quinzenalmente no PIRANOT sobre saúde pública, gestão e os desafios do sistema de...

Dr. Pacheco: “A Alquimia do ódio nas redes: destilando veneno ou néctar?”

Nota da Redação: O portal PIRANOT preza pela liberdade de expressão e pela pluralidade de ideias. Ressaltamos, no entanto, que os textos de opinião publicados neste espaço são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam, obrigatoriamente, a visão do portal, de seus editores ou parceiros.

Caro leitor, pare um instante nessa tela iluminada e permita-se ser guiado por estas linhas até o fim, como quem segue um riacho. Esta reflexão surge da primeira matéria que postei aqui no Piranot, onde os xingamentos choveram publicamente, enquanto os elogios chegavam baixinho (graças a Deus, aos montes) em mensagens privadas – e o pior: a maioria dos leitores nem leu até o final. E esse fenômeno ocorreu também com as outras personagens políticas que frequentaram esta página. Vivemos tempos em que todos enxergam o copo meio vazio, ignorando o brilho do meio cheio; opinamos com fervor sobre o governo, como torcedores escalando a seleção brasileira, certos de nossas verdades infalíveis, mas esquecemos de governar nossas próprias contas, nossas vidas desarrumadas. Preocupamo-nos em apontar os tropeços alheios, sem olhar para o espelho da alma, onde moram nossos valores morais adormecidos. Fique comigo até o fim nesta matéria e desvendaremos por que destilamos ódio nas redes, contra os sussurros sábios da filosofia e do Evangelho, e como transformar esse veneno em bálsamo de empatia.

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Na antiguidade, Sócrates bradava: “Conhece-te a ti mesmo”. Mas nas redes sociais, invertemos o oráculo de Delfos: conhecemos tudo sobre o outro, sem sondar as profundezas de nosso ser. Criticamos publicamente com a ferocidade de leões, reservando elogios para conversas privadas, como se o teclado fosse escudo para nossas fraquezas. Essa dicotomia não é nova; ecoa nos versos de Vinicius de Moraes: “Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”. Por que não deixamos o infinito do elogio fluir no público, em vez de condensá-lo no privado? As redes, esse vasto oceano digital, amplificam o eco do vazio interior, onde o ódio se destila gota a gota, ignorando a plenitude que Sócrates nos convida a cultivar.

Do púlpito cristão, Jesus nos admoesta em Mateus 7:1: “Não julgueis, para que não sejais julgados”. Contra essa luz eterna, nossas postagens se erguem como sombras rebeldes, destilando críticas que ferem sem remorso. Elogiamos no privado porque ali o outro é humano, com CPF, família, sonhos frágeis… No público, ele vira caricatura, alvo fácil para flechas virtuais. Poetas como Cecília Meireles capturam essa ilusão: “Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa”. Mas nas redes, o instante é eterno e incompleto, um palco onde o julgamento suplanta a compaixão, traindo os ensinamentos que nos moldaram.

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Imagine as redes como um alambique antigo, onde palavras são o mosto fermentado do coração. Destilamos ódio porque é mais fácil que o vinho da paciência; criticamos o governo com certezas absolutas, sem viver o dia a dia dos gabinetes, assim como opinamos sobre a escalação da Seleção Brasileira sem pisar o gramado. Aristóteles, em sua *Ética a Nicômaco*, nos lembra que a virtude reside no meio-termo, entre o excesso e a deficiência. Por que não buscamos esse equilíbrio digital? Em vez de inundar timelines com veneno, por que não semear poesia, recordando que por trás de cada perfil há um ser com família, lutas e luzes ocultas?

Essa destilação seletiva – ódio público, elogio privado – revela uma alma dividida, como diria Kierkegaard em sua angústia existencial. Preocupamo-nos com o outro para fugir de nós mesmos, ignorando que o verdadeiro governo começa no lar interior. Nas redes, independente de bandeiras políticas ou ideológicas, cada crítica é um dardo em carne viva: um pai lendo insultos ao voltar do trabalho, uma mãe vendo o filho rotulado. Que tal inverter o alambique? Transformar o ódio em néctar de diálogo, honrando a filosofia que nos eleva e o Cristo que nos une?

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Convido-o, leitor, a pausar o scroll e refletir: da próxima vez que o dedo pairar sobre “publicar”, pergunte-se se aquela palavra constrói ou destrói. As redes podem ser jardim de rosas, não espinheiro de ódios. Como em um soneto de Camões, “Amor é fogo que arde sem se ver”: que nosso fogo digital aqueça corações, não os queime. Que esta leitura seja o primeiro passo para um uso nobre das páginas virtuais, onde o humano prevalece sobre o efêmero.

Dr. Sérgio Pacheco atualmente é vice-prefeito de Piracicaba e quinzenalmente escreve para os leitores do PIRANOT.

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Vice-prefeito de Piracicaba e médico cardiologista formado pela PUC-Campinas. Foi secretário municipal de Saúde e acumula mais de 20 anos de experiência em hospitais da região. Escreve quinzenalmente no PIRANOT sobre saúde pública, gestão e os desafios do sistema de saúde municipal.

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