Anvisa aprova Mounjaro para jovens com diabetes tipo 2; vendas antecipadas geram alerta
Medicamento reduz hemoglobina glicada em crianças e adolescentes, mas uso off-label preocupa especialistas
Pontos-chave
- Anvisa aprovou Mounjaro para tratamento de diabetes tipo 2 em jovens de 10 a 17 anos.
- Estudo clínico mostrou redução média de 2,2 pontos percentuais na hemoglobina glicada em 30 semanas.
- Vendas antecipadas do Mounjaro para menores de 18 anos em janeiro de 2026 geram alerta sobre uso off-label.
- Especialistas alertam para riscos da automedicação e efeitos adversos do uso inadequado em crianças e adolescentes.
- Não há previsão de incorporação do medicamento pelo SUS para essa faixa etária, limitando o acesso seguro.
A Anvisa aprovou em 22 de abril de 2026 o uso do medicamento Mounjaro (tirzepatida) para o tratamento do diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes entre 10 e 17 anos. A decisão baseia-se em estudo clínico que mostrou redução média de 2,2 pontos percentuais na hemoglobina glicada em 30 semanas, com efeitos adversos gastrointestinais considerados toleráveis.
O diabetes tipo 2 tem aumentado entre jovens no Brasil e no mundo, associado principalmente à obesidade infantil, que atinge 38% dos brasileiros entre 5 e 19 anos. Estima-se que 213 mil adolescentes brasileiros tenham diabetes tipo 2, segundo estudo de 2019. O Mounjaro, já aprovado para adultos, agora oferece uma nova opção terapêutica para essa faixa etária, mas seu acesso ainda é restrito e não há previsão de incorporação pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Dados oficiais do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) indicam que, em janeiro de 2026, foram vendidas 1.240 caixas de Mounjaro para menores de 18 anos, antes da aprovação da Anvisa para essa faixa etária. Além disso, 3.385 caixas de medicamentos análogos de GLP-1 foram comercializadas fora da faixa recomendada, o que levanta preocupações sobre o uso off-label, especialmente para controle de obesidade infantil.
A fabricante Lilly do Brasil afirma que não incentiva o uso do Mounjaro para fins não aprovados, como o controle de peso em menores de idade. No entanto, especialistas alertam para os riscos da automedicação e do uso inadequado, que podem causar desnutrição, pancreatite, colecistite e impactos hormonais que afetam crescimento, menstruação e comportamento.
O tratamento do diabetes tipo 2 em jovens deve ser conduzido por equipe multidisciplinar, incluindo médico, nutricionista, psicólogo e educador físico, para garantir segurança e eficácia. Medicamentos análogos de GLP-1, como Victoza e Lirux, já são aprovados para crianças a partir dos 10 anos, mas o Mounjaro representa uma nova alternativa com resultados clínicos promissores.
Estudo clínico e efeitos adversos
O estudo publicado na revista The Lancet em setembro de 2025 avaliou o uso do Mounjaro em jovens com diabetes tipo 2 e mostrou redução significativa da hemoglobina glicada, principal marcador do controle glicêmico. A taxa de descontinuação por efeitos adversos foi baixa, e os sintomas mais comuns foram náusea, diarreia e vômito, considerados toleráveis pela maioria dos pacientes.
Apesar dos resultados positivos, especialistas como Fábio Trujillo, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), alertam que o uso off-label, especialmente para obesidade, pode trazer riscos ainda pouco estudados, incluindo má formação óssea e alterações hormonais que impactam o desenvolvimento físico e psicológico dos jovens.
Desafios regulatórios e acesso no Brasil
A Anvisa tem papel fundamental na regulação e monitoramento do uso de medicamentos, mas o aumento das vendas antecipadas de Mounjaro para menores de 18 anos evidencia desafios no controle do uso off-label. Não há políticas públicas claras para a incorporação do medicamento no SUS para crianças e adolescentes, o que limita o acesso seguro e supervisionado.
Além disso, a alta prevalência da obesidade infantil no Brasil pode levar à prescrição não autorizada do Mounjaro para controle de peso, o que exige atenção das autoridades sanitárias para evitar riscos à saúde dessa população vulnerável. O acompanhamento multidisciplinar e a orientação médica são essenciais para o uso adequado do medicamento.
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