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quinta-feira, abril 23
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Danilo Olegario
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Danilo Olegario

Consultor de negócios, especialista em liderança, cultura organizacional e desenvolvimento humano. Com mais de 25 anos de experiência em educação corporativa, é fundador da RHOER e referência em treinamentos e consultorias de alta performance. Autor de sete livros sobre gestão,...

Danilo Olegario: “A epidemia da distração; estamos ficando burros ou só cansados de pensar?”

Os artigos publicados nesta coluna são de responsabilidade do autor e não representam, necessariamente, a opinião do PIRANOT.

Você já deve ter tido a sensação de que estamos menos inteligentes. Ou, no mínimo, já deve ter ouvido alguém dizer que, pela primeira vez, estamos diante de uma inversão geracional — em que a geração atual parece menos preparada, menos atenta e, em alguns aspectos, menos capaz do que a anterior.

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Historicamente, o movimento sempre foi o oposto. As gerações seguintes tendiam a ser mais prósperas, mais instruídas e mais desenvolvidas. Era quase um princípio silencioso da evolução social: nossos filhos seriam, de alguma forma, mais espertos que nós.

Ou pelo menos era.

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Michel Desmurget, autor do polêmico livro A fábrica de cretinos digitais, reúne uma série de estudos para sustentar uma tese desconfortável: pela primeira vez, filhos podem apresentar desempenho cognitivo inferior ao dos pais. E ele começa desmontando um dos mitos mais aceitos da atualidade — o de que os jovens são “nativos digitais” e, portanto, naturalmente mais preparados para lidar com tecnologia.

Para o autor, essa ideia simplesmente não se sustenta. Não existe genialidade em usar algo que foi feito para não exigir esforço.

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Aplicativos e redes sociais são projetados para serem intuitivos, simples e quase automáticos. Como o próprio Desmurget ironiza, “qualquer pateta é capaz, em poucos minutos, de utilizar essas ferramentas”. Faça um teste simples: peça para um jovem te explicar como navegar na internet, baixar aplicativos ou usar uma rede social. Ele provavelmente fará isso com extrema facilidade. Agora peça para ele montar uma planilha no Excel, organizar dados ou salvar corretamente um arquivo. É bem possível que a dificuldade apareça — e não, isso não é exagero.

O ponto é simples, ainda que incômodo: usar tecnologia não exige inteligência — exige apenas adaptação a interfaces pensadas para não exigir esforço cognitivo.

E isso não se limita à tecnologia em si. O ambiente como um todo tem sido moldado para simplificar, reduzir e, principalmente, evitar qualquer tipo de esforço mental mais profundo.

Até mesmo naquilo que consumimos culturalmente isso começa a aparecer.

Um exemplo curioso vem do documentário A Primeira Arte, da Brasil Paralelo, que aponta como a música popular tem passado por um processo de simplificação progressiva — com redução na complexidade de melodias, arranjos e estruturas, em favor de padrões repetitivos, fáceis de consumir e altamente direcionados por algoritmos. Não se trata aqui de um julgamento estético, mas de um sinal de algo maior: conteúdos cada vez mais simples, rápidos e previsíveis tendem a exigir cada vez menos do nosso cérebro. E o cérebro responde. Consumir esse tipo de estímulo não nos torna mais inteligentes — nos torna mais adaptados ao raso.

Olha que relevação indigesta que o autor Desmurget faz, de fato qual é a complexidade de qualquer rede social ou aplicativo de usabilidade? Eles são pensados para serem usados por qualquer um independente da capacidade cognitiva da pessoa – outro dado importante: o fato de um adolescente consumir diversos jogos não necessariamente o deixa mais inteligente – estudos demostram que atividades motoras repetitivas aumentam a atividade da massa cerebral, contudo, isso não se traduz automaticamente em ganho de inteligência ou capacidade cognitiva – por exemplo: uma criança que joga cerca de 60 minutos de vídeo game de ação, uma hora após ter feito seus deveres e duas horas antes de ir se deitar, ao despertar essa criança apresenta uma taxa de retenção de memória decrescida de pouco mais de 30%, parece um número pequeno, mas some isso ao longo dos dias, semanas e anos e veja o resultado: dificuldade de concentração, baixa retenção de informação, incapacidade de concluir tarefas e uma sensação constante de dispersão. Você provavelmente já viu alguém assim. Ou talvez… esteja se reconhecendo.

Mas voltemos à pergunta central: estamos realmente ficando mais burros?

A resposta honesta é: não exatamente — mas estamos, sim, apresentando sinais preocupantes.

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Há evidências relevantes de queda em escores de QI e em habilidades cognitivas em alguns países e períodos. O que a ciência aponta com mais consistência não é um colapso global da inteligência, mas sim uma reversão do chamado efeito Flynn – o fenômeno que, por décadas, indicou aumento progressivo do QI ao longo das gerações. 

Um dos estudos mais relevantes sobre isso foi realizado na Noruega e publicado em 2018 na revista científica PNAS. Os pesquisadores analisaram dados de testes cognitivos ao longo de quase 30 anos, comparando não apenas gerações diferentes, mas também pessoas dentro da mesma família — como irmãos. E foi justamente aí que surgiu o dado mais revelador: mesmo com a mesma genética, os irmãos mais novos passaram a apresentar desempenho inferior aos mais velhos.

A conclusão é direta e incômoda: O problema não é genético, é ambiental, ou seja: não estamos nascendo menos inteligentes — estamos vivendo em contextos que exigem cada vez menos da nossa capacidade de pensar, concentrar e raciocinar. (Fonte: https://www.pnas.org/doi/pdf/10.1073/pnas.1718793115?).

E é muito fácil de explicar esse estudo na prática, quer ver: quantos números de telefone você tem memorizado na sua cabeça? Ou como você chega a um lugar que você não conhece sem um GPS? Ou, quantos livros você leu nos últimos meses? Não se trata de demonizar a tecnologia. Ela é, sem dúvida, um avanço extraordinário. Mas existe um efeito colateral silencioso: deixamos de exercitar aquilo que não é mais necessário. E o cérebro funciona como qualquer outro sistema — aquilo que não é usado… atrofia. 

O ambiente em que estamos nos acostumando cada vez mais não nos permite elaborar questões complexas que demandam elasticidade cognitiva da nossa parte, as redes sociais e os grande aplicativos digitais não foram feitos para que possamos ser mais inteligentes ou moralmente melhores humanos – a linguagem computacional aliás é particularmente binária, isto é, trazendo para uma linguagem do dia a dia, ela não foi criada para aprofundar pensamento. Foi criada para capturar atenção. E, nesse processo, tudo precisa ser simplificado, polarizado e reduzido. Não existe nuance. Ou você concorda ou discorda. Ou você é de um lado ou do outro. Ou você reage… ou desaparece. Pensar exige tempo, e tempo não engaja. Não existe reflexão moderada, pelo menos que seja estimulada nas redes sociais, ou você é azul ou você é vermelho, ou você é direita ou você é esquerda, ou você é Palmeiras ou você é Corinthians e é assim que a coisa funciona – a sua opinião não é relevante para nenhuma empresa que vive de engajamento polarizado, pense nisso, ao expressar sua opinião ou vomitar a sua moralidade na internet isso não esta o deixando mais inteligente e tampouco sábio, você só faz parte de um mercado de negócios que é feito para funcionar assim.

Por outro lado, existe um lado bom de não pensar que é viver na bolha da ilusão atemporal, acreditando que a felicidade está naquilo que os algoritmos podem nos dizer: é fantástico e confortável não ser demandado para usar o pensamento, seguir a manada é muito mais fácil do que buscar autonomia intelectual, é sensacional e assustador ao mesmo tempo, viver sob essa perspectiva de não pensar em nada e só seguir o fluxo das coisas. O “lado bom de não pensar” é essa ingenuidade que satisfaz o ego e nos coloca numa posição onde imaginamos ter alguma relevância, é satisfatório viver sem o esforço do pensamento e viver de migalhas de aceitação social e autoafirmação e pequenas doses do que chamo de felicidade liquida – rápida e superficial.

Mas existe um preço que quase ninguém está disposto a pagar. Porque, quando o estímulo acaba, quando a tela apaga, quando o ruído diminui, alguma coisa aparece. E não é confortável – o silêncio.

E talvez seja exatamente por isso que ele tenha se tornado tão raro — e tão insuportável.

Mas isso… é o que a gente começa a encarar na próxima parte.

Danilo Olegario
Sócio da Rhoer Consultoria de Negócios e Escritor

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Sobre o colunista

Danilo Olegario

Consultor de negócios, especialista em liderança, cultura organizacional e desenvolvimento humano. Com mais de 25 anos de experiência em educação corporativa, é fundador da RHOER e referência em treinamentos e consultorias de alta performance. Autor de sete livros sobre gestão, autodesenvolvimento e negócios, já atuou em grandes empresas como Aegea, Hyundai Motors, Grupo São Martinho e Grupo CCR (atual Motiva). Escreve quinzenalmente às terças-feiras no PIRANOT sobre liderança, propósito e...

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