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quinta-feira, abril 9
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Danilo Olegario
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Danilo Olegario

Consultor de negócios, especialista em liderança, cultura organizacional e desenvolvimento humano. Com mais de 25 anos de experiência em educação corporativa, é fundador da RHOER e referência em treinamentos e consultorias de alta performance. Autor de sete livros sobre gestão,...

ESTREIA | Danilo Olegario: “A epidemia da distração; a geração que não vive, mas documenta tudo”

· 5 min de leitura

Pontos-chave

  • Série em 4 partes examina a "Epidemia da Distração" que afeta todas as gerações
  • A experiência perdeu espaço para o registro: não basta viver, é preciso provar que viveu
  • 30% dos acidentes de trânsito no Brasil estão ligados à desatenção do motorista
  • Distração digital não é questão geracional — é um fenômeno coletivo e generalizado
  • Reflexão inspirada no livro A Felicidade Líquida, de Danilo Olegario

Os artigos publicados nesta coluna são de responsabilidade do autor e não representam, necessariamente, a opinião do PIRANOT.

Olá, eu sou o Danilo Olegario — e, antes de qualquer título, alguém inquieto com o tempo em que a gente vive.

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Essa é a primeira de uma série de reflexões inspiradas no meu livro A Felicidade Líquida. Mas, mais do que um desdobramento do livro, essa é uma tentativa de olhar com um pouco mais de atenção para algo que talvez esteja passando despercebido — justamente porque estamos distraídos demais.

A ideia aqui não é trazer respostas prontas. É provocar. Incomodar um pouco. Fazer pensar — nem que seja por alguns minutos no meio do seu dia.

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Ao longo das próximas semanas, vamos percorrer quatro textos sobre o que eu tenho chamado de “Epidemia da Distração” — um fenômeno silencioso, mas com efeitos cada vez mais visíveis na forma como vivemos, nos relacionamos e percebemos o mundo.

A série será dividida em quatro partes:

  1. Parte 1: A geração que não vive, mas documenta tudo
  2. Parte 2: Estamos ficando burros ou só cansados de pensar?
  3. Parte 3: O silêncio virou insuportável — e isso diz tudo
  4. Parte 4: A morte da atenção: ninguém termina nada

Se em algum momento esses textos te causarem um leve desconforto… talvez seja um bom sinal. Seguimos por aqui.

Parte 1: A geração que não vive, mas documenta tudo

Nunca na história tivemos tanto acesso, tanta facilidade e tantas comodidades que tornaram a vida, no mínimo, menos complexa. Pedimos comida e ela chega na porta. Precisamos nos locomover, temos carros à disposição. Quer trocar de relacionamento? Existem aplicativos que organizam pessoas como se fossem produtos em uma vitrine emocional.

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Não enfrentamos nem um terço das dificuldades que nossos antepassados enfrentaram. Até o simples ato de pegar um ônibus hoje é mais fácil. Não perdemos mais tempo em filas — aliás, a fila praticamente deixou de existir no sentido prático.

É fato: a vida está, sem sombra de dúvidas, mais fácil. Mas existe um detalhe curioso — e preocupante. Nunca estivemos tão distraídos. E talvez nunca estivemos tão distantes da própria vida.

Recentemente, estive em um grande evento. Daqueles voltados a relacionamento, networking, conexão humana. Um ambiente desenhado — pelo menos na teoria — para aproximar pessoas. Na prática, o que se viu foi exatamente o oposto, um salão cheio… e vazio ao mesmo tempo.

Pessoas cabisbaixas, imersas cada uma no seu próprio mundo digital. Durante as palestras, inclusive. E não por falta de esforço dos palestrantes — que tentavam, de todas as formas possíveis, capturar a atenção coletiva. Quase sempre em vão. Porque, no fim das contas, as pessoas estavam mais preocupadas em registrar que estavam ali… do que em realmente estar. E isso tem sido o modus operandi das relações em geral: você vai em um restaurante e o que mais se observa são as pessoas em seus aparelhos celulares ao invés de se relacionarem.

E talvez esse seja o ponto mais simbólico do nosso tempo: a experiência perdeu espaço para o registro da experiência. Não basta viver. É preciso provar que viveu. E, de preferência, em tempo real. O apelo por conexão humana nunca foi tão necessário — e tão ignorado. E não, isso não é uma questão geracional. Seria confortável demais se fosse — bastaria colocar a culpa nos jovens e pronto, mas é bem pior que isso. É generalizado: seja jovens, adultos, mais velhos… todos igualmente distraídos.

Vivemos uma epidemia silenciosa. E ela não é só filosófica. Ela é prática, extremamente visível e até mensurável.

No trânsito, por exemplo, a distração deixou de ser exceção e virou rotina. Cerca de 30% dos acidentes estão ligados à desatenção do motorista, e o uso do celular já figura entre as principais causas de mortes no trânsito brasileiro. Ou seja, a gente não está só distraído. A gente está morrendo distraído.

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E, ainda assim, seguimos consumindo — e pior — normalizando conteúdos de pessoas dirigindo e gravando vídeos, como se isso fosse apenas mais uma estética da vida moderna. Não é de se espantar que os números sejam catastróficos em termos de distração, já que transformamos imprudência em entretenimento, risco em rotina e alienação em estilo de vida.

Vivemos como se estivéssemos em Nárnia — mas com Wi-Fi ligado o tempo todo. Mas tudo bem, o importante é postar.

Postar o que não estamos vivendo. Compartilhar momentos que não foram sentidos. Construir narrativas bonitas o suficiente para parecerem reais — mesmo quando não são, e pregar virtudes que não estamos vivendo. O importante é gerar engajamento naquilo que chamamos propositalmente de “seguidores”.

No fundo, talvez a gente não queira viver mesmo. Talvez a gente só queira parecer que viveu, mostrar aquilo que não estamos vivendo, ou pelo menos não estamos percebendo o como estamos vivendo.

E aí vem a desculpa pronta, confortável, socialmente aceita: “Ah, mas esse é o preço da modernidade.” Será mesmo? Ou será que a modernidade só escancarou algo que a gente prefere não encarar?

Porque, no fim, a pergunta não é sobre tecnologia ou redes sociais. É sobre algo muito mais básico e muito mais humano: será que estamos perdendo a capacidade de nos relacionar? Ou pior… será que estamos deixando de perceber que já perdemos?

Talvez o problema não seja o excesso de informação. Talvez seja a nossa incapacidade de permanecer tempo suficiente em uma única coisa é que tem nos deixado imersos em uma distração coletiva e desenfreada e renunciando à nossa capacidade particular que nos torna humanos: a de pensar.

E quando tudo vira raso, até o pensar começa a parecer esforço demais.

Mas isso ainda é só a superfície do problema. Porque, se a gente já não consegue mais sustentar atenção, o que mais estamos perdendo sem perceber?

Talvez a resposta comece na próxima pergunta: estamos ficando burros ou só cansados de pensar? Tema para o nosso próximo texto.

Danilo Olegario
Sócio da Rhoer Consultoria de Negócios e Escritor

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Sobre o colunista

Danilo Olegario

Consultor de negócios, especialista em liderança, cultura organizacional e desenvolvimento humano. Com mais de 25 anos de experiência em educação corporativa, é fundador da RHOER e referência em treinamentos e consultorias de alta performance. Autor de sete livros sobre gestão, autodesenvolvimento e negócios, já atuou em grandes empresas como Aegea, Hyundai Motors, Grupo São Martinho e Grupo CCR (atual Motiva). Escreve quinzenalmente às terças-feiras no PIRANOT sobre liderança, propósito e...

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